segunda-feira, 27 de abril de 2009
O MITO DO JESUS HISTÓRICO
Muito interesse tem sido expresso no meio Judaico acerca da atividade dos "Judeus por Jesus" e outras organizações missionárias que saem dos seus limites para converterem os Judeus ao Cristianismo. Infelizmente, muitos Judeus estão deficientemente equipados para fazerem face aos missionários Cristãos e aos seus argumentos. Espero que este artigo contribua para remediar esta situação.
Quando se se encontra com missionários Cristãos, é importante que baseemos os nossos argumentos em factos corretos. Argumentos baseados em factos incorretos podem facilmente ser desmascarados e acabarem por fortalecer os argumentos dos missionários.
É pena que tantos bem intencionados professores de Estudos Judaicos tenham inconscientemente ajudado os missionários, ensinando aos alunos Judeus informações incorretas acerca das origens do Cristianismo. Posso recordar a história que me foi ensinada acerca de Jesus na escola Judaica que frequentei:
"Jesus foi um rabi famoso do primeiro século, cujo nome Hebreu foi Rabbi Yehoshua. O seu pai foi um carpinteiro chamado José e o nome da sua mãe era Maria. Maria engravidou antes de ter casado com José. Jesus nasceu num estábulo em Belém durante um censos Romano. Jesus cresceu em Nazaré e tornou-se um rabi erudito. Viajou por todo o Israel pregando que as pessoas se deviam amar. Algumas pessoas pensaram que ele era o Messias e ele não negou isso, o que deixou os outros rabis muito zangados. Ele causou tanta controvérsia que o Governador Romano Pôncio Pilatos o mandou crucificar. Foi enterrado num túmulo, e mais tarde o seu corpo foi dado como desaparecido, dado que provavelmente teria sido roubado pelos seus discípulos."
Alguns anos depois de ter sido ensinado esta aparentemente inocente história, comecei a interessar-me pelas origens do Cristianismo e decidi ler algo mais sobre o "famoso Rabbi Yehoshua". Para grande desânimo meu, descobri que não havia qualquer evidência histórica deste Rabbi Yehoshua. A reivindicação de que Jesus foi um rabi chamado Yehoshua e a de que o seu corpo tinha sido provavelmente roubado acabaram por se tornar puras conjecturas. O resto da história não era mais que uma versão diluída da história que os Cristãos acreditam ser parte da religião Cristã mas que não é suportada por nenhuma fonte histórica legítima. Não havia absolutamente nenhuma evidência histórica que Jesus, José ou Maria tenham existido, já não mencionando que José tenha sido carpinteiro ou que Jesus tenha nascido em Belém e vivido em Nazaré.
Apesar da falta de evidência da existência de Jesus, muitos Judeus fizeram o trágico erro de assumir que a história do Novo Testamento era largamente correta e tenham tentado refutar o Cristianismo experimentando racionalizar os vários milagres que alegadamente ocorreram durante a vida de Jesus e após a sua morte. Numerosos livros foram escritos que tentam esta aproximação ao Cristianismo. Esta aproximação, no entanto, é desesperadamente falhada e é, de facto, perigosa pois encoraja a crença no Novo Testamento.
Quando os Israelitas foram confrontados com a adoração de Baal, não aceitaram cegamente os antigos mitos Semíticos Ocidentais como História. Quando os Macabeus foram confrontados com a religião Grega, eles não aceitaram cegamente a mitologia Grega como História. Porque é que tantos Judeus modernos aceitam cegamente a mitologia Cristã? A resposta a esta questão parece ser que muitos Cristãos não sabem onde a distinção entre História estabelecida e crenças Cristãs reside, tendo passado a confusão deles para a comunidade Judaica. Passando uma vista de olhos pela secção de religião numa livraria local, recentemente deparei com um livro que pretendia ser uma biografia objectiva de Jesus. Acabou por ser nada mais que um sumário da história usual do Novo Testamento. Até incluía pretensões que os milagres de Jesus tinham sido testemunhados mas que explicações racionais para eles poderiam existir. Muitos livros de História escritos pelos Cristãos têm uma aproximação similar. Alguns autores Cristãos sugerirão que talvez os milagres não sejam completamente históricos, mas eles todavia seguem a história do Novo Testamento usual. A ideia de que havia um Jesus histórico real firmou-se tanto na sociedade Cristã que os Judeus que vivem no mundo Cristão começaram a aceitar cegamente esta crença porque nunca a viram ser seriamente desafiada.
Apesar da difundida crença em Jesus, permanece o facto de que não existe um Jesus histórico. Para se perceber o que se quer dizer com o "Jesus histórico", considere o Rei Midas da Mitologia Grega. A história em que o Rei Midas transformava tudo o que tocava em ouro é claramente absurda, mas apesar disto sabemos que houve um verdadeiro Rei Midas. Arqueólogos escavaram o seu túmulo e encontraram os seus restos esqueléticos. Os Gregos que contaram a história de Midas e o seu toque dourado pretendiam claramente que o relacionassem com o Midas real. Por isso, apesar da história do toque dourado ser ficcional, a história é acerca de alguém cuja existência é dada como um facto – o "Midas histórico". No caso de Jesus, no entanto, não há uma única pessoa cuja existência seja um facto e que seja também objecto das histórias de Jesus, isto é, não há nenhum Jesus histórico.
Quando confrontados com um missionário Cristão, deve-se imediatamente apontar que a existência de Jesus não foi provada. Quando os missionários argumentam, usualmente apelam mais para as emoções do que para a razão, e tentarão que fiques embaraçado ao negares a historicidade de Jesus. A resposta habitual é qualquer coisa do gênero de "Negar a existência de Jesus não é tão tolo como negar a existência de Júlio César ou da Rainha Isabel?". Uma variação popular desta resposta, usada especialmente contra os Judeus é "Negar a existência de Jesus não é como negar o Holocausto?". Deve-se então apontar que há amplas fontes históricas a confirmar a existência de Júlio César, da Rainha Isabel ou de qualquer outro que for nomeado, enquanto que não existe evidência correspondente para Jesus.
Para se ser perfeitamente direto, deve-se ter tempo para fazer alguma investigação sobre as personagens históricas mencionadas pelos missionários e apresentar fortes evidências da sua existência. Ao mesmo tempo deve-se desafiar os missionários a mostrar evidência similar da existência de Jesus. Deve-se apontar que embora a existência de Júlio César ou da Rainha Isabel, etc. seja universalmente aceite, o mesmo já não acontece com Jesus. No Extremo Oriente, onde as maiores religiões são o Budismo, o Xintoísmo, o Taoísmo e o Confucionismo, Jesus é considerado como mais uma personagem da mitologia religiosa ocidental, a par com Thor, Zeus e Osíris. A maioria dos Hindus não acredita em Jesus, mas os que acreditam consideram que ele é uma das muitas encarnações do deus Hindu Vishnu. Os muçulmanos certamente acreditam em Jesus, mas rejeitam a história do Novo Testamento e consideram que ele foi um profeta que anunciou a vinda de Maomé. Eles negam explicitamente que ele tenha sido crucificado.
Em resumo, não há uma história de Jesus que seja uniformemente aceite pelo mundo inteiro. É este facto que põe Jesus num nível diferente para personalidades históricas estabelecidas. Se os missionários usarem o "argumento Holocausto", deve-se apontar que o Holocausto está bem documentado e que existem numerosos relatos de testemunhas oculares. Deve-se apontar que a maior parte das pessoas que negam o Holocausto eram semeadores de ódio anti-semítico com credenciais fraudulentas. Por outro lado, milhões de gente honesta na Ásia, que fazem a maioria da população mundial, não conseguiram ser convencidos pela história Cristã de Jesus na medida que não há nenhuma evidência constrangedora da sua autenticidade. Os missionários insistirão que a história de Jesus é um facto bem estabelecido e irão argumentar que existem "bastantes evidências que comprovam isso". Deve-se então insistir em ver essa evidência e recusar-se a ouvir enquanto eles não a apresentarem.
Se Jesus não foi uma personagem histórica, de onde veio toda a história do Novo Testamento em primeiro lugar? O nome Hebreu para os Cristãos sempre foi Notzrim. Este nome é derivado da palavra hebraica neitzer, que significa broto ou rebento – um claro símbolo Messiânico. Já havia pessoas chamadas Notzrim no tempo do Rabbi Yehoshua ben Perachyah (c. 100 A.C.) Apesar de os modernos Cristãos afirmarem que o Cristianismo só começou no primeiro século depois de Cristo, é claro que os Cristãos do primeiro século em Israel se consideravam como sendo a continuação do movimento Notzri, que existia à cerca de 150 anos. Um dos mais notáveis Notzrim foi Yeishu ben Pandeira, também conhecido como Yeishu ha-Notzri. Os estudiosos do Talmude sempre mantiveram que a história de Jesus começou com Yeishu. O nome Hebreu para Jesus sempre foi Yeishu, e o Hebreu para "Jesus de Nazaré" sempre foi "Yeishu ha-Notzri" (o nome Yeishu é um diminutivo do nome Yeishua, e não de Yehoshua.) É importante notar que Yeishu ha-Notzri não é um Jesus histórico, uma vez que o Cristianismo moderno nega alguma conexão entre Jesus e Yeishu e, além do mais, partes do mito de Jesus são baseadas em outras personagens históricas além de Yeishu.
Sabemos pouco sobre Yeishu ha-Notzri. Todos os trabalhos modernos que o mencionam são baseados em informação retirada do Tosefta e do Baraitas – escritos feitos ao mesmo tempo do Mishna mas não contidos neste. Porque a informação histórica respeitante a Yeishu é tão danosa para o Cristianismo, muitos autores Cristãos (e também muitos Judeus) tentaram desacreditar esta informação e inventaram muitos argumentos engenhosos para a explicarem. Muitos dos seus argumentos são baseados em mal entendidos e citações erróneas do Baraitas, e para se ter uma imagem exacta de Yeishu devem-se ignorar os autores Cristãos e examinar o Baraitas diretamente.
A insuficiente informação contida no Baraitas é a seguinte: o Rabi Yehoshua ben Perachyah, num dado momento, repeliu Yeishu. As pessoas pensavam que Yeishu era um feiticeiro, considerando que ele tinha levado os Judeus a desencaminharem-se. Como resultado de acusações feitas contra ele (os detalhes das quais não são conhecidos, mas provavelmente envolveriam alta traição), Yeishu foi apedrejado e o seu corpo foi pendurado na véspera da Passagem. Antes disto, ele foi exibido durante 40 dias com um arauto que ia à sua frente anunciando que ele iria ser apedrejado e chamando por gente para avançar e o defenderem. Todavia, nada foi trazido em seu favor. Yeishu tinha cinco discípulos: Mattai, Naqai, Neitzer, Buni e Todah.
No Tosefta e no Baraitas, o nome do pai de Yeishu é Pandeira ou Panteiri. Estes são formas Hebreu-Aramaicas de um nome Grego. Em Hebreu, a terceira consoante do nome é escrito quer com um dalet, quer com um tet. Comparando com outras palavras Gregas transliteradas para Hebreu mostra que o original Grego devia ter tido um delta como sua terceira consoante, e assim a única possibilidade para o nome Grego do pai é Panderos. Como os nomes Gregos eram comuns entre os Judeus durante a época dos Macabeus, não é necessário assumir que ele era Grego, como alguns autores fizeram.
A relação entre Yeishu e Jesus é corroborada pelo facto de que Mattai e Todah, os nomes de dois dos discípulos de Yeishu, serem as formas originais hebraicas de Mateus e Tadeu, nomes de dois dos discípulos de Jesus na mitologia Cristã.
Os primeiros Cristãos estavam também cientes do nome "ben Pandeira" para Jesus. O filósofo pagão Celso, que foi famoso pelos seus argumentos contra o Cristianismo, reivindicou em 178 d.C. que tinha ouvido a um Judeu que a mãe de Jesus, Maria, se tinha divorciado do seu marido, um carpinteiro, depois de se ter provado que ela era uma adúltera. Ela vagueou em vergonha e deu à luz Jesus em segredo. O seu verdadeiro pai era um soldado chamado Pantheras. De acordo com o escritor Cristão Epifânio (c. 315 – 403 d.C.), o apologista Cristão Origen (c. 185 – 254 d.C) tinha afirmado que "Panther" era o apelido de Jacob, o pai de José, o padrasto de Jesus. É de notar que a afirmação de Origen não é baseada em nenhuma informação histórica. É puramente uma conjectura cujo objectivo era explicar a história de Pantheras de Celso. Essa história é também não histórica. A reivindicação de que o nome da mãe de Jesus era Maria e a pretensão de que o seu marido era um carpinteiro é tirada diretamente das crenças Cristãs. A afirmação de que o pai verdadeiro de Jesus se chamava Pantheras é baseada numa tentativa incorreta de reconstruir a forma original de Pandeira. Esta reconstrução incorreta foi provavelmente influenciada pelo facto de o nome Pantheras ser encontrado entre os soldados Romanos.
Porque é que as pessoas acreditavam que a mãe de Jesus se chamava Maria e o seu marido se chamava José? Porque é que os não Cristãos acusavam Maria de ser uma adúltera enquanto que os Cristãos acreditavam que ela era virgem? Para responder a essas questões ter-se-á de examinar algumas das lendas à volta de Yeishu. Não se pode esperar obter a verdade absoluta sobre as origens do mito de Jesus, mas podemos mostrar que existem alternativas razoáveis para a aceitação cega do Novo Testamento.
O nome José para o nome do padrasto de Jesus é fácil de explicar. O movimento Notzri era particularmente popular entre os Judeus Samaritanos. Enquanto que os Fariseus estavam à espera de um Messias que seria um descendente de David, os Samaritanos queriam um Messias que viesse restaurar o reino nortenho de Israel. Os Samaritanos enfatizavam a sua descendência parcial das tribos de Efraim e Manassés, que descendiam do José da Tora. Os Samaritanos consideravam-se como sendo "Bnei Yoseph", i.e., "filhos de José", e como acreditavam que Jesus tinha sido o seu Messias, teriam assumido que era um "filho de José". A população de língua Grega, que tinha pouco conhecimento de Hebreu e das verdadeiras tradições Judaicas, poderia facilmente ter mal entendido este termo e presumir que José era o nome verdadeiro do pai de Jesus. Esta conjectura é corroborada pelo facto que de acordo com o Evangelho segundo S. Mateus, o pai de José se chama Jacob, tal como o do José da Tora. Mais tarde, outros Cristãos que seguiam a ideia de que o Messias seria um descendente de David, tentaram seguir o curso de José até David. Chegaram a duas genealogias contraditórias para ele, uma registrada no Evangelho segundo S. Mateus e a outra no Evangelho segundo S. Lucas. Quando a ideia de que Maria era virgem desenvolveu, o mítico José foi relegado para a posição de ser simplesmente o seu marido e o padrasto de Jesus.
Para se perceber de onde a história de Maria veio, teremos que nos virar para outra personagem histórica que contribuiu para o mito de Jesus, e que é ben Stada. Toda a informação que temos sobre ben Stada advém novamente do Tosefta e do Baraitas. Há ainda menos informação sobre ele do que sobre Yeishu. Algumas pessoas acreditavam que ele tinha trazido encantamentos do Egipto num corte da sua carne, outros pensavam que ele era um louco. Ele era um trapaceiro e foi apanhado pelo método da testemunha escondida, sendo apedrejado em Lod.
No Tosefta, ben Stada é chamado ben Sotera ou ben Sitera. Sotera parece ser a forma Hebreu-Aramaica do nome Grego Soteros. As formas "Sitera" e "Stada" parecem ter surgido como más interpretações e erros de soletração ( yod substituindo vav e o dalet a substituir reish ).
Como havia tão pouca informação acerca de ben Stada, muitas conjecturas surgiram sobre quem ele era. É conhecido da Gemara que ele era confundido com Yeishu. Isto provavelmente resultou do facto de que ambos foram executados por ensinamentos traidores e estarem associados à feitiçaria. As pessoas que confundiam ben Stada com Yeishu tiveram que explicar o porquê dele também ser chamado ben Pandeira. Como o nome "Stada" se parece com a expressão aramaica "stat da", que significa "ela desencaminhou-se", pensou-se que "Stada" se referia à mãe de Yeishu e que ela era uma adúltera. Consequentemente, as pessoas começaram a pensar que Yeishu era o filho ilegítimo de Pandeira. Estas idéias são de facto mencionadas na Gemara e são provavelmente mais antigas. Como ben Stada viveu nos tempos Romanos e o nome Pandeira se assemelhava com o nome Pantheras encontrado entre os soldados Romanos, assumiu-se que Pandeira tinha sido um soldado Romano estacionado em Israel. Isto certamente explica a história mencionada por Celso.
O Tosefta menciona um caso famoso de uma mulher chamada Miriam bat Bilgah que casou com um soldado Romano. A idéia de que Yeishu tinha nascido de uma mulher judia que tinha tido um caso com um soldado Romano provavelmente resultou da confusão entre a mãe de Yeishu e esta Míriam. O nome "Míriam" é, claro, a forma original do nome "Maria". É de facto conhecido através do Gemara que algumas das pessoas que confundiam Yeishu com ben Stadta acreditavam que a mãe de Yeishu era "Míriam, a cabeleireira de mulheres".
A história de que Maria (Míriam), mãe de Jesus, era uma adúltera, era certamente não aceitável para os primeiros Cristãos. A história da virgem que deu à luz foi provavelmente inventado para limpar o nome de Maria. Os primeiros Cristãos não inventaram isto do nada. Histórias de virgens que davam à luz eram comuns nos mitos pagãos. As seguintes personagens mitológicas eram tidas como nascidas de virgens fecundadas divinamente: Rómulo e Remo, Perseu, Zoroastro, Mitra, Osíris-Aion, Agdistis, Attis, Tammuz, Adónis, Korybas, Dioniso. As crenças pagãs em uniões entre deuses e mulheres, não considerando se elas eram virgens ou não, é ainda mais comum. Acreditava-se que muitas personagens da mitologia pagã eram filhas de pais divinos e mães humanas. A crença Cristã de que Jesus era o filho de Deus nascido de uma virgem é típica de uma superstição Greco-Romana. O filósofo Judeu Phílon de Alexandria (c. 25 A.C. – 50 D.C.), avisou contra a superstição bastante espalhada da crença de uniões entre homens deuses e mulheres humanas que retornavam a mulher a um estado de virgindade.
O deus Tammuz, adorado pelos pagãos no norte de Israel, era dado como nascido da virgem Myrrha. O nome Myrrha assemelha-se superficialmente a "Maria/Míriam", e é possível que esta particular história de uma virgem que deu à luz tenha influenciado a história de Maria mais que as outras. Tal como Jesus, Tammuz foi sempre chamado Adon, que significa "Senhor" (A personagem Adónis da mitologia Grega é baseada em Tammuz.) Como veremos mais tarde, a relação entre Jesus e Tammuz vai mais longe que isto.
A ideia de que Maria tinha sido uma adúltera nunca desapareceu completamente na mitologia Cristã. Em vez disso, a personagem de Maria foi dividida em duas: Maria, a mãe de Jesus, que se acreditava ser uma virgem, e Maria Magdalena, que se acreditava ser uma mulher de má fama. A ideia de que a personagem de Maria Madalena é também derivada de Míriam, a mítica mãe de Yeishu, é corroborado pelo facto de o estranho nome "Magdalena" se assemelhar claramente ao termo aramaico "mgadala nshaya", que significa "cabeleireira de mulheres". Como se mencionou anteriormente, acreditava-se que a mãe de Yeishu era "Míriam, a cabeleireira de mulheres". Porque os Cristãos não sabiam o que o nome "Magdalena" significava, mais tarde conjecturaram que isso significava que ela tinha vindo de um lugar chamado Magdala, a oeste do lago Kinneret. A ideia das duas Marias assentava bem na forma pagã de pensamento. A imagem de Jesus sendo seguido pelas duas Marias lembra bastante Dioniso sendo seguido por Deméter e Perséfone.
A Gemara contém uma lenda interessante acerca de Yeishu, que tenta ilucidar o Beraitas, que diz que o Rabi Yehoshua ben Perachyah repeliu Yeishu. A lenda afirma que quando o rei Asmoneu Alexandre Janeus estava a matar os Fariseus, o Rabi Yehoshua e Yeishu fugiram para o Egipto. Quando voltaram, chegaram a uma estalagem. A palavra aramaica "aksanya" tanto significa "estalagem" como "estalajadeiro(a)". O Rabi Yehoshua observou o quão bela a "arksanya" era (referindo-se à estalagem.) Yeishu (referindo-se à estalajadeira) replicou que os olhos dela eram muito estreitos. O Rabi Yehoshua zangou-se bastante com Yeishu e excomungou-o. Yeishu pediu que o perdoasse muitas vezes, mas o Rabi Yehoshua não o perdoava. Uma vez, quando o Rabi Yehoshua estava a recitar a Shema, Yeihsu veio ter com ele. O Rabi fez-lhe um sinal de que devia esperar. Yeishu não entendeu e pensou que estava a ser rejeitado novamente. Ele zombou do Rabi Yehoshua fazendo um tijolo e adorando-o. O Rabi Yehoshua disse-lhe para ele se arrepender mas ele recusou, dizendo que tinha aprendido com ele que a alguém que peca e leva muitos a pecar não é dada a oportunidade de se arrepender.
Esta história, que começa com os eventos da estalagem, é bastante semelhante com outra lenda em que o protagonista não é o Rabi Yehoshua mas o seu discípulo Yehuda ben Tabbai. Nesta lenda, Yeishu não é nomeado. Pode-se então questionar se Yeishu foi realmente ao Egipto ou não. É possível que Yeishu tenha sido confundido com algum outro discípulo do Rabi Yehoshua ou do Rabi Yehuda. A confusão pode ter resultado de Yeishu ser confundido com ben Stada, que tinha regressado do Egipto. Por outro lado, Yeishu poderia ter mesmo fugido para o Egipto e regressado, e isto, por seu turno, poderia ter contribuído para a confusão entre Yeishu e ben Stada. Qualquer que seja o caso, a crença que Yeishu tenha fugido para o Egipto para escapar à matança de um rei cruel parece ser a origem da crença Cristã de que Jesus e a sua família fugiram para o Egipto para escapar ao Rei Herodes.
Como os primeiros Cristãos acreditavam que Jesus tinha vivido nos tempos Romanos é natural que tenham confundido o rei cruel que tinha querido matar Jesus com Herodes, pois não havia outros reis cruéis adequados durante o período Romano. Yeishu era adulto no tempo em que os Rabis fugiram de Alexandre Janeus; porque é que os Cristãos acreditavam que Jesus e a sua família tinham fugido para o Egipto quando Jesus era infante? Porque é que os Cristãos acreditavam que o rei Herodes tinha ordenado que todos os bebés nascidos em Belém fossem mortos, quando não há evidência histórica disso? Para responder a estas questões temos novamente que recorrer à mitologia pagã.
O tema de uma criança divina ou semidivina que é temida por um rei cruel é muito comum na mitologia pagã. A história usual é que o rei cruel recebe uma profecia de que uma certa criança vai nascer e vai usurpar o trono. Em algumas histórias a criança é nascida de uma virgem e usualmente é filho de um deus. A mãe da criança tenta escondê-lo. O rei normalmente ordena a matança de todos os bebés que possam ser o profetizado rei. Exemplos de mitos que seguem este enredo são as histórias de nascimento de Rómulo e Remo, Perseu, Krishna, Zeus e Édipo. Apesar de os literalistas da Tora não gostarem de o admitir, a história do nascimento de Moisés também se assemelha à destes mitos (alguns dos quais afirmam que a mãe pôs a criança num cesto e o colocou num rio.) Existiam provavelmente várias histórias destas a circular no Levante que se perderam. O mito Cristão da matança dos inocentes por Herodes é simplesmente uma versão Cristã deste tema. O enredo era tão conhecido que um sábio Midrashic não resistiu a usá-lo para um relato apócrifa do nascimento de Abraão.
Os primeiros Cristãos acreditavam que o Messias iria nascer em Belém. Esta crença é baseada numa má interpretação de Miquéias_5.2, que simplesmente nomeia Belém como a cidade onde a linhagem Davidiana começou. Como os primeiros Cristãos acreditavam que Jesus era o Messias, eles automaticamente acreditaram que ele tinha nascido em Belém. Mas porque é que os Cristãos acreditavam que ele tinha vivido em Nazaré? A resposta é bem simples. Os primeiros Cristãos de língua Grega não sabiam o que a palavra "Nazareno" significava. A forma primitiva Grega desta palavra é "Nazoraios", que deriva de "Natzoriya", o equivalente aramaico do Hebreu "Notzri" (lembre-se que "Yeishu ha-Notzri" é o original Hebreu para "Jesus, o Nazareno".) Os primeiros Cristãos conjecturaram que "Nazareno" significava uma pessoa de Nazaré, e assim assumiu-se que Jesus tinha vivido em Nazaré. Ainda hoje, os Cristãos alegremente confundem as palavras hebraicas "Notzri" (Nazareno, Cristão), "Natzrati" (Nazareno, natural de Nazaré) e "nazir" (nazarite), todas as quais têm significados completamente diferentes.
A informação no Talmude (que contém o Baraitas e o Gemara) acerca de Yeishu e ben Stada é tão danosa para o Cristianismo que os Cristãos sempre tomaram medidas drásticas contra ela. Quando os Cristãos primeiro descobriram a informação, tentaram imediatamente apagá-la censurando o Talmude. A edição de Basileia do Talmude (c. 1578 – 1580) tinha todas as passagens relacionadas com Yeishu e ben Stada apagadas pelos Cristãos. Ainda hoje, as edições do Talmude usadas pelos escolares Cristãos não têm estas passagens!
Durante as primeiras décadas deste século, ferozes batalhas acadêmicas irromperam violentamente entre escolares Cristãos e Ateus acerca das verdadeiras origens do Cristianismo. Os Cristãos foram forçados a enfrentarem a evidência Talmudica. Não podiam ignorar mais isso e assim, em vez disso, decidiram atacá-lo. Afirmaram que o Yeishu Talmudico era uma distorção do "Jesus histórico". Afirmaram que o nome "Pandeira" era simplesmente uma tentativa hebraica para pronunciar a palavra Grega para virgem – "parthenos". Apesar de haver uma parecença superficial entre as palavras, temos de notar que para "Pandeira" derivar de "parthenos", o "n" e o "r" têm de trocar de posições. No entanto, os Judeus não sofriam de nenhum impedimento linguístico que causasse isto! A resposta Cristã é que possivelmente os Judeus alteram propositadamente a palavra "parthenos" para os nomes "Pantheras" (encontrado na história de Celso) ou para "pantheros", que significa pantera, e "Pandeira" é derivado da palavra deliberadamente alterada. Este argumento também falha, pois a terceira consoante da palavra "parthenos" alterada e inalterada é theta. Esta letra é sempre transliterada pela letra hebraica taw, cuja pronunciação durante os tempos clássicos muito se assemelhava a essa letra Grega. Contudo, o nome "Pandeira" nunca é soletrado com um taw, mas com um dalet ou um tet, o que mostra que a forma original Grega tinha um delta como sua terceira consoante, e não um theta. O argumento Cristão pode-se também voltar contra si: talvez os Cristãos deliberadamente alterassem "Pantheras" para "parthenos" quando inventaram a história da virgem que deu à luz. Também é de notar que a semelhança entre "Pantheras" (ou "pantheros") é muito menor quando escrita em Grego, pois na formação original Grega as suas segundas vogais são completamente diferentes.
Os Cristãos também não aceitaram que Maria Magdalena estivesse ligada a Miriam, a alegada mãe de Yeishu no Talmude. Eles argumentaram que o nome "Magdalena" significa uma pessoa de Magdala e que os Judeus inventaram "Miriam, a cabeleireira de mulheres" (mgdala nshaya) ou para zombar dos Cristãos, ou porque eles próprios se equivocaram quanto ao nome "Magdalena". Este argumento também é falso. Primeiramente, ignora a gramática Grega: o Grego correcto para "de Magdala" é "Magdales", e o Grego correcto para uma pessoa de Magdala é "Magdalaios". A raiz Grega original para "Magdalena" é "Magdalen-", com um "n" distinto mostrando que a palavra não tem nada a ver com Magdala. Em segundo lugar, Magdala só obteve o seu nome após os Evangelhos terem sido escritos. Antes disso era chamada Magadan ou Dalmanutha (apesar de "Magadan" ter um "n", falta-lhe o "l", e portanto não pode ser a derivação de "Magdalena".) De facto, a comunidade Cristã alterou o nome para Magdala às ruínas desta área porque acreditavam que Maria Magdalena tinha vindo de lá.
Os Cristãos também afirmam que a palavra "Notzri" significa uma pessoa de Nazaré. Isto é, claro, falso, pois a palavra hebraica para Nazaré é "Natzrat" e uma pessoa de Nazaré é uma "Natzrati". O nome "Notzri" não tem a letra taw de "Natzrat", e assim não pode derivar daí. Os Cristãos argumentam que talvez o nome aramaico para Nazaré fosse "Natzarah" ou "Natzirah" (como o moderno nome árabe), o que explica o taw que falta em "Notzri". Isto também não tem senso pois a palavra aramaica para alguém da Nazaré seria "Natzaratiya" ou "Natziratyia" (com um taw, pois a terminação feminina "-ah" tornar-se-ia "-at-" quando o sufixo "-yia" é adicionado), e além do mais, a forma aramaica não seria usada em Hebreu. Os Cristãos também apareceram com outros argumentos variados que podem ser desmascarados uma vez que eles confundem as palavras hebraicas "Notzri" e "nazir", ou ignoram o facto de que "Notzri" é a primitiva forma da palavra "Nazareno".
Para resumir, todos os argumentos Cristãos foram baseados em mudanças fonéticas e formas gramaticais impossíveis, e foram, conseqüentemente, desmistificadas. Além do mais, apesar das lendas na Gemara não possam ser tidas como factos, a evidência no Baraitas e no Tosefta respeitante a Yeishu pode levar-nos atrás diretamente até Yehoshua ben Perachyah, Shimon ben Shetach e Yehuda ben Tabbai, enquanto que a evidência no Baraitas e no Tosefta respeitante a ben Stada leva-nos até ao Rabi Eliezer ben Hyrcanus e seus discípulos, que foram contemporâneos de ben Stada. Conseqüentemente, esta evidência pode ser encarada como historicamente certa. Por esta razão os Cristãos modernos não mais atacam o Talmude, mas em vez disso negam qualquer relação entre Jesus e Yeishu ou ben Stada. Eles desmistificam as similaridades como puras coincidências. No entanto, ainda tem de se estar atento aos falsos ataques contra o Talmude pois muitos livros Cristãos ainda os mencionam e podem ressurgir de tempos em tempos.
Muitas partes da história de Jesus não são baseadas em Yeishu ou ben Stada. A maior parte das denominações Cristãs afirma que Jesus nasceu a 25 de Dezembro. Originalmente, os Cristãos orientais acreditavam que ele tinha nascido a 6 de Janeiro. Os Cristãos arménios ainda seguem esta primitiva crença enquanto que muitos Cristãos consideram que essa é a data da visita dos Magos. Como já foi apontado anteriormente, Jesus foi provavelmente confundido com Tammuz, nascido da virgem Myrrha. Sabe-se que nos tempos Romanos os deuses Tammuz, Aion e Osíris eram identificados. Dizia-se que Osíris-Aion tinha nascido da virgem Geb a 6 de Janeiro, e isto explica a data primitiva para o Natal. Geb era, às vezes, representada como uma vaca sagrada e o seu templo era um estábulo, que é provavelmente a origem da crença Cristã de que Jesus nasceu num estábulo. Embora alguns possam pensar que esta afirmação é forçada, é tido como um facto que algumas facções primitivas Cristãs consideravam Jesus e Osíris nos seus escritos. A data de 25 de Dezembro para o Natal era originalmente a data pagã do aniversário do deus sol, cujo dia da semana é ainda conhecido como Sun_day. O halo de luz que é usualmente mostrado à volta da face de Jesus e dos santos Cristãos é outro conceito tirado do deus sol.
O tema da tentação por uma criatura diabólica também é encontrado na mitologia pagã. A história da tentação de Jesus por Satã, em particular, parece-se com a tentação de Osíris pelo deus diabólico Set na mitologia egípcia.
Já tínhamos sugerido que havia uma relação entre Jesus e o deus pagão Dioniso. Como Dioniso, o infante Jesus foi posto com fraldas e colocado numa manjedoura; como Dioniso, Jesus podia tornar água em vinho; como Dioniso, Jesus viajou de burro e deu de comer a uma multidão num ermo; como Dioniso, Jesus sofreu e foi objecto de escárnio. Alguns primitivos Cristãos afirmavam que Jesus tinha de facto nascido, não num estábulo, mas numa caverna – como Dioniso.
De onde é que a história de que Jesus foi crucificado veio? Parece ter resultado de várias origens. Em primeiro lugar, houve três personagens históricas durante o período Romano que as pessoas pensavam ser o Messias e que foram crucificadas pelos Romanos, a saber, Yehuda da Galileia (6 D.C.), Theudas (44 D.C.) e Benjamim, o Egípcio (60 D.C.). Dado que se pensava que estas três pessoas eram o Messias, elas foram naturalmente confundidas com Yeishu e ben Stada. Yehuda da Galileia tinha pregado na Galileia e tinha arranjado muitos seguidores antes de ser crucificado pelos Romanos. A história do ministério de Jesus na Galileia parece ter sido baseada na vida de Yehuda da Galileia. Esta história e a crença de que Jesus viveu em Nazaré na Galileia reforçaram-se mutuamente. A crença de que alguns dos discípulos de Jesus foram mortos em 44 D.C. por Agripa parece ser baseado no destino dos discípulos de Theuda. Dado que ben Stada tinha vindo do Egipto é natural que ele tenha sido confundido com Benjamim, o Egípcio. Eles foram também, provavelmente, contemporâneos. Alguns escritores modernos até sugeriram que eles foram a mesma pessoa, apesar disso não ser possível pois as histórias das suas mortes são completamente diferentes. Nos Actos dos Apóstolos do Novo Testamento, que usa o livro de Flávio Josefo "Antiguidades Judaicas" (93 – 94 D.C.) como referência, é deixado claro que o autor considerou Jesus, Yehuda da Galileia, Theudas e Benjamim, o Egípcio como quatro pessoas diferentes. No entanto, naquela altura já era muito tarde para anular as confusões que já tinham acontecido antes do Novo Testamento ter sido escrito, e a ideia da crucificação de Jesus tinha-se tornado uma parte integral do mito.
Em segundo lugar, surgiu a ideia de que Jesus tinha sido executado na véspera da Passagem. Esta crença é aparentemente baseada na execução de Yeishu. A Passagem ocorre aquando do Equinócio da Primavera, um evento considerado importante pelos astrólogos durante o Império Romano. Os astrólogos pensavam nesta época como a época do cruzamento de dois círculos celestes astrológicos, e este evento era simbolizado por uma cruz. Deste modo, acreditava-se que Jesus tinha morrido "na cruz". O mau entendimento deste termo por aqueles que não eram iniciados nos cultos astrológicos foi outro factor que contribuiu para a crença de que Jesus tenha sido crucificado. Num dos primeiros documentos Cristãos (os "Ensinamento dos Doze Apóstolos"), não há menção de Jesus ter sido crucificado, e o sinal de uma cruz no céu é usado para representar a chegada de Jesus. É de notar que o centro da superstição astrológica no Império Romano foi a cidade de Tarso na Ásia Menor – o lugar de onde o lendário missionário S. Paulo veio. A ideia de que uma estrela especial tenha anunciado o nascimento de Jesus e que um eclipse solar tenha ocorrido na sua morte é típica da superstição astrológica Tarsiana.
O terceiro factor que contribuiu para a história da crucificação é, outra vez, a mitologia pagã. O tema de uma divindade ou semi-divindade sendo sacrificada contra uma árvore, poste ou cruz, e depois ressuscitando, é muito comum na mitologia pagã. Foi encontrado nas mitologias de todas as civilizações ocidentais, estendendo-se desde um extremo oeste como a Irlanda até um extremo este como a Índia. Em particular, é encontrado nas mitologias de Osíris e Attis, ambos os quais eram muitas vezes identificados com Tammuz. Osíris acabou com os seus braços esticados numa árvore tal como Jesus na cruz. Esta árvore era, às vezes, mostrada como um poste com dois braços esticados – o mesmo aspecto da cruz Cristã. Na adoração de Serapis (uma composição de Osíris e Apis), a cruz era um símbolo religioso. De facto, o símbolo da "cruz Latina" Cristã parece ser baseado diretamente no símbolo da cruz de Osíris e Serapis. Os Romanos nunca usaram esta cruz tradicional Cristã para as crucificações, eles usavam cruzes com a forma de um X ou de um T. O hieróglifo de uma cruz numa colina era associada a Osíris. Este hieróglifo representava o "Good One", em Grego "Chrestos", um nome aplicado a Osíris e outros deuses pagãos. A confusão deste nome com "Christos" (= Messias, Cristo) reforçou a confusão entre Jesus e os deuses pagãos.
No equinócio da Primavera, os pagãos do norte de Israel celebravam a morte e ressurreição de Tammuz-Osíris, nascido de uma virgem. Na Ásia Menor (onde as primeiras igrejas Cristãs se estabeleceram), uma celebração similar era feita para Attis, também nascido de uma virgem. Attis era mostrado como morrendo contra uma árvore, sendo enterrado numa gruta e depois ressuscitando ao terceiro dia. Agora se vê de onde a história da ressurreição de Jesus veio. Na adoração de Baal, acreditava-se que Baal tinha enganado Mavet (o deus da morte) aquando do equinócio da Primavera. Ele fez-se passar por morto e depois apareceu vivo. Ele teve sucesso neste ardil dando o seu único filho como sacrifício.
A ocorrência da Passagem na mesma época do ano que as "Páscoas" pagãs não é coincidência. Muitos dos costumes da Pessach foram designados como alternativas Judaicas aos costumes pagãos. Os pagãos acreditavam que quando o seu deus da natureza (como Tammuz, Osíris ou Attis) morria e ressuscitava, a sua vida ia para as plantas usadas pelo homem como comida. O matza feito da colheita da Primavera era o seu novo corpo e o vinho das uvas era o seu novo sangue. No Judaísmo, o matza não era usado para representar o corpo de um deus, mas o pão de homem pobre que os Judeus comeram antes de saírem do Egipto. Os pagãos usavam o sacrifício pascal para representar o sacrifício de um deus ou do seu filho único, mas o Judaísmo usou-o para representar a refeição comida antes de saírem do Egipto. Em vez de contarem histórias de Baal a sacrificar o seu filho varão a Mavet, os Judeus contavam como o mal'ach ha-mavet (o anjo da morte) matou os filhos varões dos Egípcios. Os pagãos comiam ovos para representar a ressurreição e renascimento do seu deus da natureza, mas o ovo no seder representa o renascimento do povo Judeu ao escapar do cativeiro no Egipto. Quando os primeiros Cristãos se deram conta das similaridades entre os costumes da Pessach e os costumes pagãos, eles deram a volta completa e converteram os costumes da Pessach de volta às suas velhas interpretações pagãs. A seder tornou-se a última ceia de Jesus, similar à última ceia de Osíris, comemorada no equinócio da Primavera. O matza e o vinho tornaram-se novamente no corpo e sangue de um falso deus, desta vez Jesus. Os ovos da Páscoa são novamente comidos para comemorar a ressurreição de um "deus" e também o "renascimento" obtido pela aceitação do seu sacrifício na cruz.
O mito da última ceia é particularmente interessante. Como foi mencionado, a ideia básica da última ceia ocorrer no equinócio vernal vem da história da última ceia de Osíris. Na história Cristã, Jesus está presente com doze apóstolos. De onde é que a história dos doze apóstolos veio? Parece que na primeira versão a história era entendida como uma alegoria. A primeira vez que doze apóstolos são mencionados é no documento conhecido como "Ensinamentos dos Doze Apóstolos". Este documento aparentemente teve origem num documento sectário Judeu escrito no primeiro século D.C., mas foi adoptado pelos Cristãos, que o alteraram substancialmente e adicionaram-lhe ideias Cristãs. Nas primeiras versões é claro que os "doze apóstolos" são os doze filhos de Jacob representando as doze tribos de Israel. Os Cristãos, mais tarde, consideraram os "doze apóstolos" como sendo alegóricos discípulos de Jesus.
Na mitologia egípcia, Osíris foi traído na sua última ceia pelo deus diabólico Set, que os Gregos identificavam como Typhon. Esta parece ser a origem da ideia de que o traidor de Jesus estava presente na sua última ceia. A ideia de que este traidor se chamava "Judas" vem do tempo em que os doze apóstolos eram ainda entendidos como sendo os filhos de Jacob. A ideia de Judas (= Judah, Yehuda) traindo Jesus (o "filho" de José) é uma forte reminiscência da história do José da Tora sendo traído pelos seus irmãos com Yehuda como líder da traição. Esta alegoria seria particularmente apelativa para os Samaritanos Notzrim, que se consideravam filhos de José, traídos pelos Judeus ortodoxos (representados por Judas/Yehuda.)
No entanto, a história dos doze apóstolos perdeu a sua interpretação alegórica original, e os Cristãos começaram a pensar que os "doze apóstolos" eram doze pessoas reais que seguiram Jesus. Os Cristãos tentaram encontrar nomes para estes doze apóstolos. Mateus e Tadeu foram baseados em Mattai e Todah, dois dos discípulos de Yeishu. Um ou os dois apóstolos chamados Jacobus (Tiago) é possivelmente baseado no Jacob de Kfar Sekanya, um primitivo Cristão conhecido do rabi Eliezer ben Hyrcanus, mas isto é apenas uma suposição. Como já vimos, a personagem de Judas é maioritariamente baseado no Judah da Tora, mas poderá haver também uma ligação com um contemporâneo de Yeishu, Yehuda ben Tabbai, o discípulo do Rabi Yehoshua ben Perachyah. Como já foi mencionado, a ideia do traidor na última ceia é derivada da mitologia de Osíris, que foi traído por Set-Typhon. Set-Typhon tinha cabelo ruivo, e esta é provavelmente a origem da afirmação de que Judas tinha o cabelo ruivo. Esta ideia levou ao retrato estereotipo Cristão de que os Judeus têm cabelo ruivo, não obstante o facto de que, na realidade, o cabelo ruivo é de longe mais comum entre Arianos do que entre Judeus.
O apelido "Iscariotes" é muitas vezes atribuído a Judas. Em algumas partes onde os Novos Testamentos Ingleses têm "Iscariotes", o texto Grego realmente tem "apo Kariotou", que significa "de Karyot". Karyot era o nome de uma cidade em Israel, provavelmente o moderno lugar conhecido em árabe como Karyatein. Portanto, vê-se que o nome Iscariotes é derivado do Hebreu "ish Karyot", que significa "homem de Karyot". Isto é, com efeito, a compreensão aceite hoje em dia, pelos Cristãos, do nome. No entanto, no passado, os Cristãos entendiam mal este nome, e nasceram lendas de que Judas era da cidade de Sychar, que ele era um membro do partido extremista conhecido como Sicarii, e que ele era da tribo de Issacar. O mais interessante mal entendimento do nome é a sua primitiva confusão com a palavra scortea, que significa uma bolsa de couro. Isto levou ao mito do Novo Testamento de que Judas carregava uma tal bolsa, o que por sua vez levou à crença de que ele era o tesoureiro dos apóstolos.
O apóstolo Pedro parece ser uma personagem largamente ficcional. De acordo com a mitologia Cristã, Jesus escolheu-o para ser o "guardião das chaves do reino dos céus". Isto é claramente baseado na divindade pagã egípcia Petra, que era o porteiro do céu e da vida após a morte, governados por Osíris. Temos também de duvidar da história de Lucas "o médico", que era suposto ser amigo de Paulo. O original Grego para Lucas é Lycos, que era um outro nome para Apolo, o deus da cura.
João Baptista é largamente baseado numa personagem histórica que praticava imersão ritual na água como um símbolo físico de arrependimento. Ele não realizava baptismos sacramentais ao estilo Cristão para purificar as almas das pessoas – tal ideia era totalmente estranha ao Judaísmo. Ele foi condenado à morte por Herodes Antipas, que temeu que ele estivesse prestes a começar uma rebelião. O nome de João em Grego era "Ioannes", e em latim "Johannes". Apesar de estes nomes serem usualmente usados para o nome Hebreu Yochanan, é improvável que este tenha sido o verdadeiro nome Hebreu de João. "Ioannes" assemelha-se a "Oannes", o nome Grego para o deus pagão Ea. Oannes era o "Deus da Casa de Água". Baptismos sacramentais para purificação mágica das almas era uma prática que aparentemente originou a adoração de Oannes. A mais provável explicação do nome de João e a sua relação com Oannes é a de que João provavelmente ostentou o apelido "Oannes", dado que ele praticava o baptismo, que tinha adaptado do culto de Oannes. O nome "Oannes" foi mais tarde confundido com "Ioannes" (de facto, a lenda do Novo Testamento que diz respeito a João providencia uma pista de que o seu verdadeiro nome talvez tenha sido Zacarias.) É sabido, dos escritos de Flávio Josefo, que o João histórico rejeitou a interpretação pagã do baptismo como "purificação de almas". Os Cristãos, no entanto, voltaram a esta interpretação pagã original.
O deus Oannes era associado com a constelação do Capricórnio. Tanto Oannes como a constelação do Capricórnio eram associados com a água (a constelação é suposto representar uma mítica criatura marítima com o corpo de peixe e as partes dianteiras de um bode.) Já vimos que a Jesus é dado a mesma data de nascimento do deus sol (25 de Dezembro), quando o sol está na constelação de Capricórnio. Os pagãos pensavam deste período como um onde o deus sol imerge nas águas de Oannes e emerge renascido (o Solstício de Inverno, quando os dias começam a ficar maiores, ocorre perto de 25 de Dezembro.) Este mito astrológico é aparentemente a origem da história de que Jesus foi baptizado por João. Provavelmente começou como uma história astrológica alegórica, mas parece que o deus Oannes mais tarde foi confundido com a personagem histórica de apelido Oannes (João.)
A crença de que Jesus tinha conhecido João contribuiu para a crença de que a pregação e crucificação de Jesus tenha ocorrido quando Pôncio Pilatos era procurador da Judeia. É de notar que muitas das datas para Jesus citadas pelos Cristãos são completamente absurdas. Jesus foi em parte baseado em Yeishu e ben Stada, que provavelmente viveram com mais de um século de diferença. Ele foi também baseado nos três falsos Messias, Yehuda, Theudas e Benjamim, que foram crucificados pelos Romanos em várias épocas diferentes. Outro facto que contribuiu para a datação confusa de Jesus foi que Jacob de Kfar Sekanya e provavelmente também outros Notzrim usavam expressões como "assim fui ensinado por Yeishu ha-Notzri", apesar dele não ter sido ensinado por Yeishu em pessoa. Sabemos da Gemara que o testemunho de Jacob levou o Rabi Eliezer ben Hyrcanus a incorrectamente concluir que Jacob era um discípulo de Yeishu. Isto sugere que havia rabis que não sabiam que Yeishu tinha vivido nos tempos Asmoneus. Mesmo depois dos Cristãos situarem Jesus no primeiro século D.C., a confusão continuou entre os não-Cristãos. Houve um contemporâneo do Rabi Akiva chamado Pappus ben Yehuda que costumava trancar a sua esposa infiel. Sabemos da Gemara que algumas pessoas que algumas pessoas que confundiam Yeishu e ben Stada confundiam a mulher de Pappus com Míriam, a infiel esposa de Yeishu. Isto iria situar Yeishu mais de dois séculos depois do que ele actualmente viveu!
A história do Novo Testamento confunde tantos períodos históricos que não há maneira de a reconciliar com a História. O ano tradicional do nascimento de Jesus é 1 D.C. Era suposto Jesus não ter mais de dois anos de idade quando Herodes ordenou a matança dos inocentes. No entanto, Herodes morreu antes de 12 de Abril do ano 4 A.C.. Isto levou alguns Cristãos a redatarem o nascimento de Jesus entre 6 – 4 A.C.. No entanto, Jesus era também suposto ter nascido durante o censos de Quirinius. Este censos teve lugar depois de Arquelau ter sido deposto em 6 D.C., dez anos depois da morte de Herodes. Era suposto Jesus ter sido baptizado por João logo depois de João ter começado a baptizar e a pregar, no décimo quinto ano do reinado de Tibério, i.e., 28 – 29 D.C., quando Pôncio Pilatos foi governador da Judeia, i.e., 26 – 36 D.C. De acordo com o Novo Testamento, isto também aconteceu quando Lysanias foi tetrarca de Abilene e Anás e Caifás eram sumos sacerdotes. Mas Lysanias governou Abilene de c. 40 A.C. até ser executado em 36 A.C. por Marco António, cerca de 60 anos antes da data para Tibério, e cerca de 30 anos antes do suposto nascimento de Jesus! Além do mais, nunca houve dois sumos sacerdotes juntos, em particular, Anás não foi sumo sacerdote juntamente com Caifás. Anás foi retirado do ofício de sumo sacerdote em 15 D.C., depois de deter o ofício por alguns nove anos. Caifás só se tornou sumo sacerdote em 18 D.C., cerca de três anos depois de Anás (ele deteve este ofício durante cerca de 18 anos, e assim as suas datas são consistentes com Tibério e Pôncio Pilatos, mas não com Anás ou Lysanias.) Apesar dos Actos dos Apóstolos apresentarem Yehuda da Galileia, Theudas e Jesus como três pessoas diferentes, situa incorrectamente Theudas (crucificado no ano 44 D.C.) antes de Yehuda, que menciona correctamente como tendo sido crucificado durante o censos (6 D.C.) Muitos destes absurdos cronológicos parecem ser baseados em leituras mal interpretadas e mal entendimentos do livro de Flávio Josefo "Antiguidades Judaicas", que foi usado como referência pelo autor do Evangelho segundo S. Lucas e dos Actos dos Apóstolos.
A história do julgamento de Jesus é também altamente suspeita. Tenta claramente aplacar os Romanos enquanto difama os Judeus. O Pôncio Pilatos histórico era arrogante e déspota. Ele odiava os Judeus e nunca delegou nenhuma autoridade neles. No entanto, na mitologia Cristã, ele é retratado como um governante preocupado que se distancia das acusações contra Jesus e que foi forçado a obedecer às pretensões dos Judeus. De acordo com a mitologia Cristã, em cada Passagem os Judeus pediriam a Pilatos para libertar um qualquer criminoso que eles escolhessem. Isto é, claro, uma mentira espalhafatosa. Os Judeus nunca tiveram o costume de libertar criminosos culpados na Passagem ou em qualquer outra época do ano. De acordo com o mito, Pilatos deu aos Judeus a chance de libertar Jesus, o Cristo, ou um assassino chamado Jesus Barrabás. Os Judeus são supostos ter entusiasticamente escolhido Jesus Barrabás. Esta história é uma malévola mentira anti-semita, uma das muitas mentiras semelhantes encontradas no Novo Testamento (maioritariamente escrito por anti-semitas.) O que é particularmente odioso nesta história sem sentido é que é aparentemente uma distorção de uma história mais antiga que clamava que os Judeus tinham pedido para Jesus Cristo ser liberto. O nome "Barrabás" é simplesmente a forma Grega do Aramaico "bar Abba", que significa "filho do Pai". Assim, "Jesus Barrabás" originalmente significava "Jesus o filho do Pai", em outras palavras o usual Jesus Cristão. Quando a história antiga clamava que os Judeus queriam que Jesus Barrabás fosse solto, estava a referir-se ao Jesus usual. Alguém distorceu a história afirmando que Jesus Barrabás era uma pessoa diferente de Jesus Cristo e isto enganou os Cristãos Romanos e Gregos, que não sabiam o significado do nome "Barrabás".
Finalmente, a afirmação de que o Jesus ressurrecto apareceu aos seus discípulos é também baseada em superstições pagãs. Na mitologia Romana, Rómulo, nascido de uma virgem, apareceu ao seu amigo na estrada antes de ser levado para o céu (o tema de ser levado para o céu é encontrado em grande número de mitos e lendas pagãs, e até em histórias Judaicas.) Foi afirmado que Apolónio de Tyana também tinha aparecido aos seus discípulos depois de ter ressuscitado. É interessante de notar que o Apolónio histórico nasceu mais ou menos ao mesmo tempo que o mítico Jesus era suposto ter nascido. Em lendas, as pessoas afirmavam que ele tinha executado muitos milagres, que eram idênticos àqueles atribuídos a Jesus, tal como exorcismos de demónios e o de trazer novamente a vida a uma rapariga morta.
Quando confrontados com missionários Cristãos, deve-se apontar tanta informação quanta for possível acerca das origens do Cristianismo e do mito de Jesus. Quase nunca os irás conseguir convencer de que o Cristianismo é uma falsa religião. Não poderás provar para além de todas as dúvidas de que a história de Jesus surgiu da maneira que nós afirmamos, uma vez que muita da evidência é circunstancial. De facto, não podemos ter a certeza da origem precisa de muitos pontos particulares da história de Jesus. Isto não interessa. O que é importante é que tu próprio compreendas que existem alternativas lógicas à crença cega nos mitos Cristãos e que pode ser lançada uma dúvida racional sobre a narrativa do Novo Testamento.
A FALTA DE EVIDÊNCIA HISTÓRICA PARA JESUS
A resposta Cristã habitual para os que questionam a historicidade de Jesus é manusear vários documentos como "evidência histórica" para a existência de Jesus. Eles normalmente começam com os evangelhos canónicos, ou seja, O Evangelho segundo S. Mateus, O Evangelho segundo S. Marcos, O Evangelho segundo S. Lucas e O Evangelho segundo S. João. A afirmação habitual é a de que estes são "registos de testemunhas oculares sobre a vida de Jesus feitas pelos seus discípulos". A resposta a este argumento pode ser resumido numa palavra – pseudepigráfico. Este termo refere-se a trabalhos de escrita cujos autores ocultam as suas verdadeiras identidades atrás de nomes de personagens lendárias do passado. A escrita pseudepigráfica era particularmente popular entre os Judeus durante os períodos Asmoneu e Romano, e este estilo de escrita foi adoptado pelos primeiros Cristãos.
Os evangelhos canónicos não são os únicos evangelhos. Por exemplo, há também evangelhos de Maria, Pedro, Tomé e Filipe. Estes quatro evangelhos são reconhecidos como sendo pseudepigráficos tanto por escolares Cristãos como não Cristãos. Eles providenciam uma informação histórica ilegítima dado que foram baseados em rumores e crenças. A existência destes óbvios evangelhos pseudepigráficos faz com que seja bastante racional suspeitar que os evangelhos canónicos poderão também ser pseudepigráficos. O facto de que os primeiros Cristãos escreviam evangelhos pseudepigráficos sugere que isto era de facto a norma. Deste modo, é quando os missionários afirmam que os evangelhos canónicos não são pseudepigráficos que requer provas.
O Evangelho segundo S. Marcos é escrito no nome de S. Marcos, o discípulo do mítico S. Pedro (S. Pedro é maioritariamente baseado no deus pagão Petra, que era o porteiro do céu e da vida depois da morte na religião egípcia.) Até na mitologia Cristã S. Marcos não era discípulo de Jesus, mas um amigo de S. Paulo e S. Lucas. O Evangelho segundo S. Marcos foi escrito antes do Evangelho segundo S. Mateus e do Evangelho segundo S. Lucas (c. de 100 D.C.), mas depois da destruição do Templo em 70 D.C., que menciona. Muitos Cristãos acreditam que foi escrito em c. 75 D.C. Esta data não é baseada em História, mas na crença de que um histórico S. Marcos escreveu o evangelho na sua velhice. Isto não é possível, dado que o estilo de linguagem usada em S. Marcos mostra que foi escrita (provavelmente em Roma) por um Romano convertido ao Cristianismo, cuja primeira língua era Latim e não Grego, Hebreu ou Aramaico. De facto, como todos os outros evangelhos são escritos em nome de personagens lendárias do passado, o Evangelho segundo S. Marcos foi provavelmente escrito muito depois de algum Marcos histórico (se houve um) ter morrido. O conteúdo do Evangelho segundo S. Marcos é uma colecção de mitos e lendas que foram juntos de forma a formar uma narrativa contínua. Não há provas de que tenha sido baseado em qualquer fonte histórica de confiança. O Evangelho segundo S. Marcos foi alterado e editado muitas vezes, e a versão moderna provavelmente data de cerca de 150 D.C. Clemente de Alexandria (c. de 150 D.C. – c. de 215 D.C.) queixou-se acerca das versões alternativas deste evangelho, que ainda circulavam no seu tempo (os Carpocratians, uma primeira facção Cristã, considerava a pederastia como sendo uma virtude, e Clemente queixou-se da sua versão do Evangelho segundo S. Marcos, que contava as explorações homossexuais de Jesus com rapazes novos!.)
O Evangelho segundo S. Mateus certamente não foi escrito pelo apóstolo S. Mateus. A personagem de S. Mateus é baseada na personagem histórica chamada Mattai, que era um discípulo de Yeishu ben Pandeira (Yeishu, que viveu nos tempos Asmoneus, foi uma das várias pessoas históricas em quem a personagem de Jesus foi baseada.) O Evangelho segundo S. Mateus foi originalmente anónimo e só foi lhe foi imputado o nome de S. Mateus algures durante a primeira metade do segundo século D.C. A forma primitiva foi provavelmente escrita mais ou menos ao mesmo tempo do Evangelho de S. Lucas (c. de 100 D.C.), pois nenhum dos dois parece saber do outro. Foi alterado e editado até cerca de 150 D.C. Os primeiros dois capítulos, que tratam da virgem a dar à luz, não estavam na versão original, e os Cristãos de Israel com descendência Judaica preferiram esta primeira versão. Para suas fontes, usou o Evangelho segundo S. Marcos e uma colecção de ensinamentos referidos como a Segunda Fonte (ou o Documento Q.) A Segunda Fonte não sobreviveu como um documento isolado, mas todos os seus conteúdos são encontrados no Evangelho segundo S. Marcos e no Evangelho segundo S. Lucas. Todos os ensinamentos aí contidos podem ser encontrados no Judaísmo. Os ensinamentos mais razoáveis podem ser encontrados no Judaísmo ortodoxo, enquanto que os menos razoáveis podem ser encontrados no Judaísmo sectário. Não há nada nele que requeira a nossa suposição da existência de um Jesus histórico real. Apesar do Evangelho segundo S. Mateus e do Evangelho segundo S. Lucas atribuírem os ensinamentos neles contidos a Jesus, a Epístola de S. Tiago atribui-os a S. Tiago. Como foi visto, o Evangelho segundo S. Mateus não providencia nenhuma evidência histórica para Jesus.
O Evangelho de S. Lucas e o livro dos Actos dos Apóstolos (que eram duas partes de um mesmo trabalho) foram escritos em nome da personagem mitológica Cristã de S. Lucas, o médico (que provavelmente não foi uma personagem histórica mas uma adaptação Cristã do deus Grego da cura Lycos.) Até na mitologia Cristã S. Lucas não foi um discípulo de Jesus, mas um amigo de S. Paulo. O Evangelho segundo S. Lucas e os Actos dos Apóstolos usam o livro de Flávio Josefo, "Antiguidades Judaicas", como referência, e assim não podiam ter sido escritos antes de 93 D.C. Nesta altura, qualquer amigo de S. Paulo estaria ou morto ou bem senil. De facto, tanto escolares Cristãos como não Cristãos estão de acordo de que as primeiras versões dos dois livros foram escritas por um Cristão anónimo em c. 100 D.C., e foram alterados e editados até c. 150 – 175 D.C. Além do livro de Flávio Josefo, o Evangelho segundo S. Lucas e os Actos dos Apóstolos também usam o Evangelho de S. Marcos e a Segunda Fonte como referências. Apesar de Flávio Josefo ser considerado mais ou menos de confiança, o autor anónimo muitas vezes lê ou entende mal Flávio Josefo, e além disso nenhuma das informações acerca de Jesus no Evangelho segundo S. Lucas e nos Actos dos Apóstolos vem de Flávio Josefo. Como se vê, o Evangelho segundo S. Lucas e os Actos dos Apóstolos não têm valor histórico.
O Evangelho segundo S. João foi escrito em nome do apóstolo S. João, o irmão de S. Tiago, filho de Zebedeu. O autor do Evangelho segundo S. Lucas usou tantas fontes quantas pode obter, mas ele não tinha conhecimento do Evangelho segundo S. João. Assim, o Evangelho segundo S. João não podia ter sido escrito antes do Evangelho segundo S. Lucas (c 100 D.C.) Consequentemente, o Evangelho segundo S. João não podia ter sido escrito pela semi-mítica personagem de S. João, o apóstolo, que era suposto ter sido morto por Herodes Agripa pouco antes da sua própria morte em 44 D.C. (S. João, o apóstolo, é aparentemente baseado num histórico discípulo do falso Messias, Theudas, que foi crucificado pelos Romanos em 44 D.C., e cujos discípulos foram assassinados.) O autor real do Evangelho segundo S. João foi, de facto, um anónimo Cristão de Éfeso, na Ásia Menor. O fragmento mais velho sobrevivente do Evangelho segundo S. João data de c. 125 D.C., e assim podemos datar o Evangelho de c. 100 – 125 D.C. Baseados em considerações estilísticas, muitos escolares diminuem a data para c. 100 – 120 D.C. A primeira versão do Evangelho segundo S. João não contém o último capítulo, que trata da aparição de Jesus aos seus discípulos. Tal como os outros Evangelhos, o Evangelho segundo S. João provavelmente só chegou à sua presente forma por volta de 150 – 175 D.C. O autor do Evangelho segundo S. João usou o Evangelho segundo S. Marcos frugalmente, e assim pode-se suspeitar que não confiava nele. Ele ou não tinha lido o Evangelho segundo S. Mateus e o Evangelho segundo S. Lucas ou não confiava neles, pois ele não usa nenhuma informação deles que não tenha sido encontrada no Evangelho segundo S. Marcos. Grande parte do Evangelho segundo S. João consiste em lendas com óbvias interpretações fundamentais alegóricas, e pode-se suspeitar que o autor nunca tencionou que fossem História. O Evangelho segundo S. João não contém nenhuma informação de fontes históricas de confiança.
Os Cristãos afirmarão que próprio Evangelho segundo S. João declara que é um documento histórico escrito por S. João. Esta pretensão é baseada nos versos Jo 19.34 – 35 e Jo 21.20 – 24. Jo 19.34 – 35 não afirma que o Evangelho foi escrito por S. João. Afirma que os eventos descritos nos versos imediatamente precedentes foram reportados correctamente por uma testemunha. A passagem é ambígua e não é claro se a testemunha é suposta ser a mesma pessoa que o autor. Muitos escolares são da opinião de que a ambiguidade é deliberada e que o autor do Evangelho segundo S. João está a tentar arreliar os seus leitores nesta passagem, bem como nas passagens em que conta histórias miraculosas com interpretações alegóricas. Jo 21.20 – 24 também não afirma que o autor é S. João. Afirma que o discípulo mencionado na passagem é alguém que testemunhou os eventos descritos. É mais uma vez notavelmente ambíguo no que refere à questão do discípulo ser a mesma pessoa que o autor. É de notar que esta última passagem é no último capítulo do Evangelho segundo S. João, que não fazia parte do Evangelho original, mas que foi adicionado como um epílogo por um redactor anónimo. Tem de se estar consciente do facto de que muitas traduções "fáceis de entender" do Novo Testamento distorcem as passagens mencionadas para remover a ambiguidade encontrada no original Grego (idealmente, uma pessoa precisa de estar familiarizada com o texto original Grego do Novo Testamento de maneira a evitar traduções preconceituosas e corrompidas usadas por fundamentalistas e missionários Cristãos.)
De maneira a fazer recuar as suas pretensões de que o Evangelho segundo S. Marcos e o Evangelho segundo S. Mateus foram escritos pelos "reais" apóstolos S. Marcos e S. Mateus, e que Jesus é uma personagem histórica, os missionários muitas vezes chamam a atenção para o assim chamado "testemunho de Papias". Papias foi o bispo de Hierápolis (perto de Éfeso) em meados do segundo século D.C. Nenhum dos seus escritos sobreviveu, mas o historiador Cristão Eusébio (c. 260 – 339 D.C.), no seu livro História Eclesiástica (escrito c. 311 – 324 D.C.) parafraseou certas passagens do livro de Papias "Exposition of the Oracles of the Lord" (escrito c. 140 – 160 D.C.) Nestas passagens, Papias afirma que tinha conhecido as filhas do apóstolo S. Filipe, e também reportou várias histórias que afirmou terem vindo de pessoas chamadas Aristion e João, o Ansião, que ainda estariam vivos durante a sua própria vida. Eusébio parece ter pensado que Aristion e João, o Ansião eram discípulos de Jesus. Papias afirmava que João, o Ansião tinha dito que S. Marcos tinha sido o intérprete de S. Pedro e tinha escrito exactamente tudo o que S. Pedro tinha escrito sobre Jesus. Papias também afirmou que S. Mateus tinha compilado todos os "oráculos" em Hebreu, e todos os tinham interpretado o melhor que podiam. Nada disto, no entanto, providencia uma evidência histórica legítima de Jesus nem suporta a crença de que o Evangelho segundo S. Marcos e o Evangelho segundo S. Mateus foram realmente escritos por apóstolos ostentando aqueles nomes. Papias foi um blasonador e não é de nenhuma maneira certo de que ele tenha sido honesto quando afirmou ter conhecido as filhas de S. Filipe. Mesmo que tivesse, isto iria, no máximo, provar que o apóstolo S. Filipe da mitologia Cristã tinha sido baseado numa personagem histórica. Papias nunca afirmou explicitamente que tinha conhecido Aristion e João, o Ansião. Além do mais, só porque Eusébio no século IV acreditou que tinham sido discípulos de Jesus não quer dizer que tenham sido. Nada é conhecido sobre quem realmente seria Aristion. Ele não é certamente um dos discípulos na usual tradição Cristã. Já vi livros em que certos fundamentalistas Cristãos afirmam que João, o Ansião era o apóstolo S. João, o filho de Zebedeu, e que ele ainda estaria vivo quando Papias era jovem. Eles também afirmam que Papias viveu entre c. 60 – 130 D.C., e que ele escreveu o seu livro em c. 120 D.C. Estas datas não são baseadas em nenhuma legítima evidência e são um completo disparate: Papias foi bispo de Hierápolis em c. 150 D.C. e como foi já mencionado o seu livro foi escrito algures no período c. 140 – 160 D.C. Puxando a data para Papias para 60 D.C., ainda não o coloca durante o tempo de vida do apóstolo S. João, que, de acordo com as lendas Cristãs normais, foi morto em 44 D.C. Além disso, é improvável que João, o Ansião tenha tido alguma coisa a haver com S. João, o apóstolo. De acordo com Epifâneo (c. 320 – 403), um primitivo Cristão chamado João, o Ansião tinha morrido em 117 D.C. Teremos mais a dizer sobre ele quando discutirmos as três epístolas atribuídas a S. João. Qualquer que seja o caso, as histórias que Papias coleccionou eram sendo contadas pelo menos uma década depois de os Evangelhos e os Actos dos Apóstolos terem sido escritos, e reflectem rumores e superstições infundadas acerca das origens destes livros. Em particular, a história acerca de S. Marcos obtida de João, o Ansião, não é mais que uma elaboração superficial da lenda acerca de S. Marcos encontrada nos Actos dos Apóstolos, e assim não nos diz nada acerca das verdadeiras origens do Evangelho segundo S. Marcos. A história acerca de S. Mateus escrever os "oráculos" é simplesmente um rumor, e além disso, não tem nada a haver com o Evangelho segundo S. Mateus. O termo "oráculos" pode apenas ser entendido como uma referência à colecção de escritos conhecidos como Oracles of the Lord, que é referido no título do livro de Papias, e que com toda a probabilidade é a mesma coisa que a Segunda Fonte, não o Evangelho segundo S. Mateus.
Além dos Evangelhos canónicos e dos Actos dos Apóstolos, os missionários também tentam usar as várias epístolas Cristãs como prova da história de Jesus. Eles afirmam que as epístolas são cartas escritas por discípulos e seguidores de Jesus. No entanto, epístolas (do Grego epistolē, significando mensagem ou ordem) são livros, escritos sob forma de cartas (usualmente de personagens lendárias do passado), que expõem doutrinas e instruções religiosas. Esta forma de escrita religiosa foi usada pelos Judeus nos tempos Greco-Romanos (a mais famosa epístola Judaica é a Epístola de Jeremias, que é uma prolongada condenação da idolatria, escrita durante o período Helénico na forma de carta pelo profeta Jeremias à população de Jerusalém mesmo antes deles terem sido exilados para a Babilónia.) Como no caso dos Evangelhos, há epístolas Cristãs que não estão contidas no Novo testamento, que escolares tanto Cristãos como não-Cristãos concordam serem epístolas pseudepigráficas e de nenhum valor histórico, pois expõem crenças e não História. A existência de epístolas pseudepigráficas, e verdadeiramente todo o conceito de uma epístola, sugere que as epístolas eram normalmente pseudepigráficas. Ainda assim, são as afirmações dos missionários e Cristãos fundamentalistas de que as epístolas canónicas são cartas genuínas que requerem provas.
A Epístola de S. Judas é escrita em nome de Jude (Judas), o irmão de S. Tiago. De acordo com o Evangelho segundo S. Marcos e o Evangelho segundo S. Mateus, Jesus tinha irmãos chamados Judas e Tiago. Comparando com outros escritos mostra que a Epístola de S. Judas foi escrita em c. 130 D.C., e assim é obviamente pseudepigráfica. No entanto, não há nenhuma evidência que o seu autor usou alguma fonte histórica legítima no que se refere a Jesus.
Duas das epístolas canónicas são escritas em nome de S. Pedro. Dado que S. Pedro é uma adaptação da divindade pagã egípcia Petra, estas epístolas certamente não foram escritas por ele. O estilo e o carácter da Primeira Epístola de S. Pedro sozinhos mostram que não pode ter sido escrita antes de 80 D.C. Até de acordo com a lenda Cristã, S. Pedro era suposto ter morrido no decurso das perseguições instigadas por Nero em c. 64 D.C. e portanto ele não poderia ter escrito a epístola. O autor do Evangelho segundo S. Lucas e dos Actos dos Apóstolos usou todas as fontes escritas que conseguiu obter e tendia a usá-los indiscriminadamente, no entanto ele não menciona quaisquer epístolas de S. Pedro. Isto mostra que a Primeira Epístola de S. Pedro foi provavelmente escrita depois do Evangelho segundo S. Lucas e dos Actos dos Apóstolos (c. 100 D.C.) Nenhuma das referências a Jesus na Primeira Epístola de S. Pedro é tirada de fontes históricas, mas em vez disso reflecte crenças e superstições. A Segunda Epístola de S. Pedro é uma declaração contra os Marcionistas, e portanto deve ter sido escrita em c. 150 D.C. Como se vê, é claramente pseudepigráfico. A Segunda Epístola de S. Pedro usa como fontes: a história da transfiguração de Jesus encontrada no Evangelho segundo S. Marcos, Evangelho segundo S. Mateus e Evangelho segundo S. Lucas, o Apocalipse de S. Pedro e a Epístola de S. Judas. O não canónico Apocalipse de S. Pedro (escrito algures no primeiro quarto do segundo século D.C.) é reconhecido como sendo não-histórico até pelos fundamentalistas Cristãos. Assim, a Segunda Epístola de S. Pedro também não usa qualquer fonte histórica legítima.
Agora voltamo-nos para as epístolas supostamente escritas por S. Paulo. A Primeira Epístola de S. Paulo a Timóteo avisa contra o trabalho Marcionista conhecido como Antithesis. Marcion foi expulso da Igreja de Roma em c. 144 D.C. e a Primeira Epístola de S. Paulo a Timóteo foi escrita pouco depois. Como se vê, temos novamente um caso claro de pseudepigrafia. A Segunda Epístola de S. Paulo a Timóteo e a Epístola de S. Paulo a Tito foram escritas pelo mesmo autor e datam de cerca do mesmo período. Estas três epístolas são conhecidas como as "epístolas pastorais". As 10 restantes epístolas "não-pastorais" escritas no nome de S. Paulo eram conhecidas por Marcion em c. 140 D.C. Algumas delas não foram escritas somente no nome de S. Paulo, mas estão na forma de cartas escritas por S. Paulo em colaboração com vários amigos como Sosthenes, Timóteo e Silas. O autor do Evangelho segundo S. Lucas e dos Actos dos Apóstolos usou todas as vias para obter todas as fontes disponíveis e tendeu a usá-las indiscriminadamente, mas ele não usou nada das epístolas Paulinas. Podemos então concluir que as epístolas não-pastorais foram escritas depois do Evangelho segundo S. Lucas e dos Actos dos Apóstolos no período c. 100 - 140 D.C. A não-canónica Primeira Epístola de Clemente aos Coríntios (escrita c. 125 D.C.) usa a Primeira Epístola de S. Paulo aos Corintios como fonte, e portanto podemos reduzir a data para essa epístola para 100 - 125 D.C. No entanto, ficamos com a conclusão de que todas as epístolas Paulinas são pseudepigráficas (o semi-mítico S. Paulo era suposto ter morrido durante as perseguições instigadas por Nero em c. 64 D.C.) Algumas das epístolas Paulinas aparentam terem sido alteradas e revistas numerosas vezes antes de terem chegado às suas formas modernas. Como fontes usam-se mutuamente, e ainda os Actos dos Apóstolos, o Evangelho segundo S. Marcos, o Evangelho segundo S. Mateus, o Evangelho segundo S. Lucas e a Primeira Epístola de S. Pedro. Podemos então concluir que não providenciam nenhuma evidência histórica de Jesus.
A Epístola aos Hebreus é uma epístola particularmente interessante, dado que não é pseudepigráfica mas completamente anónima. O seu autor nem revela o seu próprio nome nem escreve em nome de uma personagem mitológica Cristã. Os Cristãos fundamentalistas clamam ser outra epístola de S. Paulo e de facto chamam-lhe Epístola de S. Paulo aos Hebreus. Esta ideia, aparentemente datando do final do quarto século D.C., não é no entanto aceite por todos os Cristãos. Como fonte para a sua informação sobre Jesus usa material comum ao Evangelho segundo S. Marcos, ao Evangelho segundo S. Mateus e ao Evangelho segundo S. Lucas, mas não fontes legítimas. O autor da Primeira Epístola de São Clemente usou-o como fonte, e portanto deve ter sido escrita antes dessa epístola (c. 125 D.C.) mas depois de, pelo menos, o Evangelho segundo S. Marcos (c. 75 - 100 D.C.)
A Epístola de S. Tiago é escrita no nome de um servo de Jesus chamado Tiago (ou Jacobus.) No entanto, na mitologia Cristã havia dois apóstolos chamados Tiago e Jesus também tinha um irmão chamado Tiago. Não é claro qual dos Tiagos é o pretendido, e não há entendimento entre os próprios Cristãos. Cita declarações da Segunda Fonte, mas ao contrário do Evangelho segundo S. Mateus e do Evangelho segundo S. Lucas não atribui estas declarações a Jesus, mas apresenta-as como sendo de S. Tiago. Contém um importante argumento contra a doutrina da "salvação através da fé" exposta na Epístola de S. Paulo aos Romanos. Podemos então concluir que foi escrita durante a primeira metade do segundo século D.C., depois da Epístola aos Romanos mas antes do tempo em que o Evangelho segundo S. Mateus e o Evangelho segundo S. Lucas foi aceite por todos os Cristãos. Assim, indiferentemente de qual seja o S. Tiago pretendido, a Epístola de S. Tiago é pseudepigráfica. Não diz quase nada de Jesus e não há evidência de que o autor tinha quaisquer fontes históricas para ele.
Há três epístolas com o nome do apóstolo S. João. Nenhuma delas é, de facto, escrita no nome de S. João, e provavelmente só lhas foram atribuídas algum tempo depois de terem sido escritas. A Primeira Epístola de S. João, tal como a Epístola aos Hebreus, é completamente anónima. A ideia de que foi escrita por S. João vem do facto de que usa o Evangelho segundo S. João como fonte. As outras duas epístolas com o nome de S. João foram escritas por um único autor que em vez de escrever em nome de um apóstolo, escolheu simplesmente chamar-se "o Ancião". A ideia de que estas duas epístolas foram escritas por S. João nasceu das crenças de que "o Ancião" se referia a João, o Ancião, e que ele era a mesma pessoa que o apóstolo S. João. No caso da Segunda Epístola de S. João, esta crença foi reforçada pelo facto de que essa epístola também usa o Evangelho segundo S. João como fonte. Podemos então concluir que as primeiras duas epístolas atribuídas a S. João foram escritas depois do Evangelho segundo S. João (c. 110 -120 D.C.) Consequentemente, nenhuma das três epístolas poderia ter sido escrita pelo apóstolo S. João. Deve-se apontar que é bastante possível que o pseudónimo "o Ancião" se refira à pessoa chamada João, o Ancião, mas se tal assim é, ela não é certamente o apóstolo S. João. As primeiras duas epístolas de S. João apenas usam o Evangelho segundo S. João como fonte para Jesus; elas não usam nenhumas fontes legítima. A Terceira Epístola de S. João menciona "Cristo" escassamente e não há evidências de que tenha usado qualquer fontes históricas para ele.
Além das epístolas com o nome de S. João, o Novo Testamento também contém um livro conhecido como Apocalipse do Apóstolo S. João. Este livro combina duas formas de escrita religiosa, a da epístola e a do apocalipse (apocalipses são trabalhos religiosos que são escritos na forma de revelação acerca do futuro por uma personagem famosa do passado. Estas revelações geralmente descrevem eventos infelizes que ocorrem no tempo em que foram escritas, e também oferecem alguma esperança ao leitor de que as coisas irão melhorar.) Não é certo por quantas revisões passou o Apocalipse do Apóstolo S. João, e assim é difícil datá-la precisamente. Dado que menciona as perseguições instigadas por Nero, podemos dizer com certeza que não foi escrita antes de 64 D.C. Assim sendo, não poderia ter sido escrita pelo "verdadeiro S. João". Os primeiros versos formam uma introdução que é claramente entendida como não sendo de S. João, e que providencia uma vaga admissão de que o livro é pseudepigráfico, apesar do autor sentir que a sua mensagem é inspirada por Deus. O estilo de escrita e as referências à prática de kriobolium (baptismo em sangue de ovelha) sugerem que o autor era dessas pessoas de descendência Judaica que misturavam o Judaísmo com práticas pagãs. Havia muitos destes "Judeus pagãos" durante os tempos Romanos, e foram estas pessoas que se tornaram nos primeiros convertidos aos Cristianismo, estabeleceram as primeiras igrejas, e que foram provavelmente também responsáveis pela introdução de mitos pagãos na história de Jesus (eles são também lembrados pela sua crença ridícula de que "Adonai Tzevaot" era o mesmo que o deus pagão "Sebazios".) As referências a Jesus no livro são poucas e não há evidências de que são baseadas em nada mais que crença.
Além das epístolas aceites no Novo Testamento, e além das epístolas que são unanimemente reconhecidas como não tendo qualquer valor (como a Epístola de Barnabas), existem também várias epístolas que embora não aceites no Novo Testamento são consideradas de valor por alguns Cristãos. Primeiramente, há as epístolas com o nome de Clemente. Na lenda Cristã, S. Clemente foi o terceiro na sucessão a S. Pedro como bispo de Roma. A Primeira Epístola de S. Clemente aos Coríntios não é, de facto, escrita em nome de Clemente, mas no nome da "Igreja de Deus que estadia em Roma". Refere-se a uma perseguição que é geralmente pensada como tendo ocorrido em 95 D.C., no reinado de Domiciano, e refere-se à exoneração dos anciãos da Igreja de Corínto em c. 96 D.C. Os Cristãos acreditam que S. Clemente foi bispo de Roma durante esta altura, e esta é aparentemente a razão pela qual a epístola lhe foi mais tarde atribuída. Os Cristãos fundamentalistas acreditam que a epístola foi de facto escrita em 96 D.C. Esta data não é possível dado que a epístola se refere a bispos e a padres como grupos separados, uma divisão que não tinha ainda tomado lugar. Considerações estilísticas mostram que foi escrita em c. 125 D.C. Como referências, usa a Epístola aos Hebreus e a Primeira Epístola de S. Paulo aos Coríntios, mas nenhuma legítima fonte histórica. A Segunda Epístola de S. Clemente é de um autor diferente do primeiro e foi escrita mais tarde. Podemos então concluir que também não foi escrita por S. Clemente (não há evidências de que qualquer uma destas epístolas tenham sido atribuídas a S. Clemente antes da sua incorporação na colecção de livros conhecida como o Codex Alexandrinus, no século quinto D.C.) Como fontes para Jesus, a _Segunda Epístola de S. Clemente usa o Evangelho dos Egípcios, um documento que é rejeitado até pelos mais fundamentalistas Cristãos, e também os livros do Novo Testamento que mostramos serem de nenhum valor. Assim, e uma vez mais, não temos nenhuma legítima evidência de Jesus.
A seguir, temos as epístolas escritas no nome de Inácio. De acordo com a lenda, St. Inácio era o bispo de Antioquia que foi morto durante o reinado de Trajano c. 110 D.C. (apesar de ele ser provavelmente baseado numa personagem histórica real, as lendas acerca do seu martírio são largamente ficcionais..) Existem quinze epístolas escritas no seu nome. Destas, oito são unanimemente reconhecidas como sendo pseudepigráficas e de nenhum valor no que respeita a Jesus. As restantes sete têm cada uma duas formas, uma maior e outra mais pequena. As formas maiores são claramente edições alteradas e revistas das formas mais pequenas. Os fundamentalistas Cristãos clamam que as formas mais pequenas são as cartas genuínas escritas por St. Inácio. A Epístola de St. Inácio aos Esmirnenses menciona a tripla ordenação de bispos, padres e diáconos, que ainda não tinha tido lugar aquando da morte de St. Inácio, que ocorreu o mais tardar em 117 D.C,. e que provavelmente teve lugar c. 110 D.C. Todas as sete pequenas epístolas atacam várias crenças Cristãs, hoje consideradas heréticas, que só se tornou prevalecente c. 140 – 150 D.C. A Epístola de St. Inácio aos Romanos mais pequena contém uma citação dos escritos de St. Ireneu, escrito depois de 170 D.C. e publicada c. 185 D.C. Podemos então concluir que as sete epístolas mais curtas são também pseudepigráficas. A Epístola de St. Inácio aos Romanos mais curta foi certamente escrita depois de 170 D.C. (de facto, se não foi escrita por St. Ireneu então foi provavelmente escrita depois de c. 185 D.C.) e as outras seis foram escritas não antes do período c. 140 – 150 D.C., se não mais tarde. Não há fontes para Jesus nas epístolas de St. Inácio que não sejam os livros do Novo Testamento e os escritos de St. Ireneu, que apenas usa o Novo Testamento. Portanto, elas contêm nenhuma evidência legítima para Jesus.
Há também mais duas epístolas que os Cristãos afirmam serem cartas genuínas, a saber, a Epístola de S. Policarpo e o Martírio de S. Policarpo. As epístolas de St. Inácio e as epístolas que dizem respeito a S. Policarpo foram sempre estreitamente associadas. É bastante possível que tenham todas sido escritas pelo escritor Cristão St. Ireneu e seus discípulos. Houve certamente uma primitiva personagem histórica real Cristã chamada Policarpo. Ele foi bispo de Esmirna e foi morto pelos Romanos algures no período de 155 – 165 D.C. Quando St. Ireneu era um rapaz, conheceu S. Policarpo. Fundamentalistas Cristãos afirmam que S. Policarpo era o discípulo do apóstolo S. João. No entanto, mesmo que aceitemos a lenda de que S. Policarpo tenha vivido até à idade de 86, ele não poderia ter nascido antes de 67 D.C., e portanto não poderia ter sido discípulo de S. João (é possível que tenha sido discípulo do enigmático João, o Ansião.) Como St. Ireneu tinha conhecido S. Policarpo, também assumiram que St. Ireneu era de facto seu discípulo, uma pretensão para a qual não há evidências. A Epístola de S. Policarpo usa a maior parte dos livros do Novo Testamento e as epístolas de St. Inácio como referências, mas não usa fontes legítimas para Jesus. Os Cristãos que rejeitam as epístolas de St. Inácio mas que acreditam ser a Epístola de S. Policarpo uma carta genuína afirmam que as referências às epístolas de Inácio são uma inserção tardia. Esta ideia é baseada em inclinações pessoais, e não em nenhuma evidência genuína. Baseada numa crença cega que a epístola é uma carta genuína, alguns Cristãos datam-na de meados do segundo século D.C., pouco antes da morte de S. Policarpo. No entanto, as referências às epístolas de St. Inácio sugere que foi de facto escrita algures durante as últimas décadas do segundo século D.C., pelo menos cerca de uma década depois da morte de Policarpo, se não mais tarde.
O Martírio de S. Policarpo é escrito em nome da "Igreja de Deus que estadia em Esmirna". Começa na forma de carta, mas o seu corpo principal é escrito na forma de uma história vulgar. Fala-nos do conto do martírio de S. Policarpo. Tal como a Epístola de S. Policarpo, foi escrita algures durante as últimas décadas do segundo século D.C. Infelizmente, não existe evidência de que tenha usado quaisquer fontes de confiança para a sua história, apenas rumores e boatos. De facto, a história parece ser altamente ficcional. As referências a Jesus não são tiradas de qualquer fonte de confiança.
Assim, vimos que as epístolas usadas pelos missionários como "evidências" são tão ilegítimas como os evangelhos. Ainda assim, o leitor deve ter em atenção as traduções fáceis de entender do Novo Testamento, dado que elas chamam ás epístolas "cartas", e portanto implicando incorrectamente que elas são na verdade cartas escritas pelas pessoas das quais levaram o nome.
Agora, além dos livros do Novo Testamento, e além das epístolas relativas a S. Clemente, St. Inácio e S. Policarpo, há ainda mais um trabalho religioso Cristão que os Cristãos afirmam ser uma evidência histórica de Jesus, a saber, os Ensinamentos dos Doze Apóstolos, também conhecido como o Didache. Todos os outros primitivos trabalhos religiosos Cristãos ou são totalmente rejeitados pelos modernos Cristãos ou pelo menos reconhecidos como não sendo fontes primárias no que respeita a Jesus. O Didache começou como documento sectário Judeu, provavelmente escrito durante o período de tumulto em c. 70 D.C. A sua forma primitiva consistia em ensinamentos morais e predições da destruição da corrente ordem mundial. Esta primeira versão, que obviamente não mencionava Jesus, foi tomada pelos Cristãos, que o reviram e alteraram bastante, adicionando uma história de Jesus e regras de culto para as primeiras comunidades Cristãs. Os escolares estimam que a primeira versão Cristã do Didache não poderia ter sido escrita muito depois de 95 D.C. Provavelmente só chegou à sua forma final por volta c. 120 D.C. Parece ter servido uma comunidade Cristã isolada na Síria como uma "Ordem da Igreja" durante o período c. 100 – 130 D.C. No entanto, não há evidências de que a sua história de Jesus tenha sido baseada em qualquer fonte de confiança, e como havemos mencionado, a primitiva versão Judaica não tinha nada a haver com Jesus. De facto, este documento providencia informação de que o mito de Jesus cresceu gradualmente. Tal como o Evangelho segundo S. Marcos e as primeiras versões do Evangelho segundo S. Mateus, a história de Jesus no Didache não faz menção de um nascimento de uma virgem. Não faz menção dos fantásticos milagres que foram mais tarde atribuídos a Jesus. Apesar de Jesus ser referido como "filho" de Deus, parece que este termo é usado simbolicamente. A evidência que temos em relação à origem do mito da crucificação sugere que uma das coisas que levou a este mito era o facto da cruz ser o símbolo astrológico do Equinócio Vernal, que ocorre perto da Passagem, quando se acredita que Jesus tenha sido morto. Assim, não é de surpreender que a história no Didache não mencione Jesus a ser crucificado, apesar de mencionar uma cruz no céu como símbolo de Jesus. Os doze apóstolos mencionados no título do Didache não aparecem como doze reais discípulos de Jesus, e o termo refere-se claramente aos doze filhos de Jacob que representam as doze tribos de Israel. Assim, o Didache providencia pistas vitais no que respeita ao crescimento do mito de Jesus, mas certamente não providencia qualquer evidência de um Jesus histórico.
Dado que nenhum dos textos religiosos Cristãos providencia nenhuma evidência aceitável de Jesus, os missionários voltam-se a seguir para textos não-Cristãos. Os Cristãos afirmam que vários historiadores de confiança registaram informação acerca de Jesus. Apesar de alguns destes historiadores serem mais ou menos aceites, veremos que não eles não providenciam qualquer informação acerca de Jesus.
Primeiramente, os Cristãos afirmam que o historiador Judeu Flávio Josefo registou informações acerca de Jesus no seu livro Antiguidades Judaicas (publicado c. 93 – 94 D.C.) É verdade que este livro contém informações sobre os três falsos Messias, Yehuda da Galileia, Theudas e Benjamim, o Egípcio, e é verdade que a personagem de Jesus parece ser baseada em todos eles, mas nenhum deles pode ser considerado como o Jesus histórico. Além do mais, no livro dos Actos dos Apóstolos, estas pessoas são mencionadas como sendo pessoas diferentes de Jesus, e assim o Cristianismo moderno rejeita alguma relação entre eles e Jesus. Nas edições Cristãs revistas das Antiguidades Judaicas, há duas passagens que se referem a Jesus como está retractado nos trabalhos religiosos Cristãos. Nenhuma destas passagens são encontradas na versão original das Antiguidades Judaicas, que foi preservada pelos Judeus. A primeira passagem (XVII,3,3) foi citada pela escrita de Eusebius em c. 320 D.C., e portanto podemos concluir que foi adicionada algures entre o tempo em que os Cristãos detiveram as Antiguidades Judaicas e c. 320 D.C. Não é conhecido quando a outra passagem (XX,9,1) foi adicionada. Nenhuma das passagens é baseada em qualquer fonte de confiança. É fraudulento afirmar que estas passagens foram escritas por Flávio Josefo, e que elas providenciam evidências para Jesus. Elas foram escritas por redactores Cristãos e são baseadas puramente na crença Cristã.
A seguir, os Cristãos apontarão para os Anais de Tácito. Nos Anais XV,44, Tácito descreve como Nero culpou os Cristãos pelo incêndio de Roma em 64 D.C. Ele menciona que o nome "Cristãos" era originário de uma pessoa chamada Christus, que tinha sido executada por Pôncio Pilatos durante o reinado de Tibério. É certamente verdade que o nome "Cristãos" é derivado de Cristo ou Christus (= Messias), mas a afirmação de Tácito de que ele foi executado por Pilatos durante o reinado de Tibério é baseado puramente nas afirmações feitas pelos próprios Cristãos e que apareciam nos Evangelho segundo S. Marcos, Evangelho segundo S. Mateus e Evangelho segundo S. Lucas, que já tinham tido extensa circulação quando os Anais estavam a ser escritos (os Anais foram publicados depois de 115 D.C. e não foram certamente escritos antes de 110 D.C.) Portanto, embora os Anais contenham uma frase na qual se fala de "Christus" como uma verdadeira pessoa, esta frase foi puramente baseada em afirmações e crenças Cristãs, que são de nenhum valor histórico. É bastante irónico que os modernos Cristãos usem Tácito para suportarem as suas crenças dado que ele era o menos exacto de todos os historiadores Romanos. Ele justifica o ódio aos Cristãos dizendo que eles cometiam abominações. Além de "Christus", ele também fala de outros deuses pagãos como se eles realmente existissem. O seu sumário da História do Médio Oriente no seu livro Histórias é tão distorcido que é ridículo. Podemos concluir que a sua única menção de Christus não pode ser tida como uma evidência de confiança de um Jesus histórico.
Uma vez Tácito ser rejeitado, os Cristãos afirmarão que uma das cartas de Plínio, o Jovem ao imperador Trajano providencia evidências de um Jesus histórico (Cartas X,96.) Isto é um disparate. A carta em questão simplesmente menciona que certos Cristãos tinham maldito "Cristo" para evitarem serem castigados. Não afirma que este Cristo realmente tenha existido. A carta em questão foi escrita antes da morte de Plínio em c. 114 D.C., mas depois de ele ser mandado para Bitínia em 111 D.C., provavelmente no ano 112 D.C. Assim, ela providencia nada mais que uma confirmação do facto trivial de que à volta do começo da décima segunda década D.C. os Cristãos normalmente não amaldiçoavam algo chamado "Cristo" apesar de alguns o terem feito para evitarem o castigo. Não providencia nenhuma evidência de um Jesus histórico.
Os Cristãos irão também afirmar que Suetônio registou evidências de Jesus no seu livro As Vidas dos Imperadores (também conhecido como Os doze Césares.) A passagem em questão é Cláudio 25, onde menciona que o imperador Cláudio expulsou os Judeus de Roma (aparentemente em 49 D.C.) porque eles causavam distúrbios contínuos instigados por um certo Chrestus. Se assumirmos cegamente que "Chrestus" se refere a Jesus, então, se é que, esta passagem contradiz a história Cristã de Jesus dado que Jesus era suposto ter sido crucificado quando Pôncio Pilatos era procurador (26 – 46 D.C.) durante o reinado de Tibério, e além do mais, ele nunca foi suposto ter estado em Roma! Suetônio viveu durante o período c. 75 – 150 D.C., e o seu livro, As Vidas dos Imperadores, foi publicado durante o período 119 – 120 D.C., tendo sido escrito algum tempo depois da morte de Domiciano em 96 D.C. Assim sendo, o evento que ele descreve ocorreu pelo menos 45 anos antes de ele ter escrito acerca disso, e assim não podemos ter a certeza da sua exactidão. O nome Chrestus é derivado do Grego Chrestos, que significa "o bom" e não é o mesmo que Christ ou Christus que são derivados do Grego Christos, que significa "o ungido/Messias". Se tomarmos a passagem pelo seu valor nominal ela refere-se a uma pessoa chamada Chrestus que estava em Roma e que não tinha nada a ver com Jesus ou com qualquer outro "Cristo". O termo Chrestos era bastantes aplicado para os deuses pagãos e muitas das pessoas em Roma chamados "Judeus" eram na verdade pessoas que misturavam crenças Judaicas com crenças pagãs e que não eram necessariamente de descendência Judaica. Assim, é também possível que a passagem se refira a conflitos envolvendo estes "Judeus" pagãos que adoravam um deus pagão (como Sebazios) de título Chrestos. Por outro lado, as palavras Chrestos e Christos eram muitas vezes confundidas, e assim a passagem poderia até referir-se a algum conflito envolvendo Judeus que acreditavam que alguma pessoa era o Messias, mas esta pessoa poderá ou poderá não ter estado realmente em Roma, e por tudo o que sabemos, ele poderá não ter sido uma verdadeira personagem histórica. Deve-se ter em memória que o evento descrito teve lugar só alguns anos após a crucificação do falso Messias Theudas em 44 D.C. e que a passagem pode-se referir aos seus seguidores em Roma. Os Cristãos afirmam que a passagem se refere a Jesus e aos conflitos que nasceram depois de S. Paulo ter trazido notícias dele a Roma, e que Suetônio apenas se enganou acerca do próprio Jesus ter estado em Roma. No entanto, esta interpretação é baseada na crença cega em Jesus e nos mitos acerca de S. Paulo e não há nada que sugira ser esta a correcta interpretação. Assim, podemos concluir que Suetônio também falha em providenciar qualquer evidência de um Jesus histórico.
Todos os outros escritores que mencionam Jesus, desde S. Justino, o Mártir no segundo século D.C. aos últimos intérpretes do mito Cristão no século vinte, basearam todos as suas referências a Jesus nas fontes que desacreditamos acima. Consequentemente, as suas pretensões são de nenhum valor como evidências históricas. Ficamos então com a conclusão que de que não há absolutamente nenhumas evidências históricas de confiança e aceitáveis. Todas as referências a Jesus são derivadas das crenças supersticiosas e mitos da primitiva comunidade Cristã. A maioria destas crenças apenas apareceram após a perseguição de Nero e a tragédia de 70 D.C. Muitas destas crenças são baseadas nas lendas pagãs acerca dos deuses Tammuz, Osíris, Attis, Dioniso e o deus sol Mithras. Outros mitos acerca de Jesus parecem ser baseados em diferentes e variadas personagens históricas tais como os criminosos condenados Yeishu ben Pandeira e ben Stada, e os falsos Messias crucificados Yehuda, Theudas e Benjamim, mas nenhuma destas pessoas pode ser considerada como um Jesus histórico.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Por que os Judeus não Acreditam em Jesus?
O judaísmo mantém sua chama sempre viva.
A história comprova: os judeus continuam rejeitando o Cristianismo. Por quê?
Porque somos simplesmente judeus, nascemos e vivemos o judaísmo e temos nossas próprias convicções.
Mas quando judeus são seguidamente questionados sobre esta questão e não-judeus frequentemente perguntam: "Por que os judeus não acreditam em Jesus?" Preparamos alguns argumentos com o objetivo, não de depreciar outras religiões, pois respeitamos a todos e por esta razão não fazemos proselitismo, mas sim apenas para esclarecer a posição judaica.
Por que os judeus não acreditam em Jesus? Porque:
1. Jesus não preencheu as profecias messiânicas
2. Cristianismo contradiz a teologia judaica
3. Jesus não personifica as qualificações pessoais do Messias
4. Versículos bíblicos "referindo-se" a Jesus são traduções incorretas
5. A crença judaica é baseada na revelação nacional
1. JESUS NÃO PREENCHEU AS PROFECIAS MESSIÂNICAS
O que o Messias deveria atingir? A Tanach diz que ele:
a - Construirá o terceiro Templo Sagrado (Yechezkel 37:26-28)
b - Levará todos os judeus de volta à Terra de Israel (Yeshayáhu 43:5-6).
c - Introduzirá uma era de paz mundial, e terminará com o ódio, opressão, sofrimento e doenças. Como está escrito: "Nação não erguerá a espada contra nação, nem o homem aprenderá a guerra." (Yeshayáhu 2:4).
d - Divulgará o conhecimento universal sobre o D'us de Israel - unificando toda a raça humana como uma só. Como está escrito: "D'us reinará sobre todo o mundo - naquele dia, D'us será Um e seu nome será Um" (Zecharyá 14:9).
O fato histórico é que Jesus não preencheu nenhuma destas profecias messiânicas.
2. CRISTIANISMO CONTRADIZ A TEOLOGIA JUDAICA
a - D'us em três?
A idéia cristã da trindade quebra D'us em três seres separados: o Pai, o Filho e o Espírito Santo (mateus 28:19).
Compare isto com o Shemá, a base da crença judaica: "Ouve, ó Israel, o Eterno nosso D'us, o Senhor é UM" (Devarim 6:4). Os judeus declaram a unicidade de D'us todos os dias, escrevendo-a sobre os batentes das portas (Mezuzá), e atando-a à mão e cabeça (Tefilin). Esta declaração da unicidade de D'us são as primeiras palavras que uma criança judia aprende a falar, e as últimas palavras pronunciadas antes de morrer.
Na Lei Judaica, adorar um deus em três partes é considerado idolatria - um dos três pecados cardeais, que o judeu prefere desistir da vida a transgredir. Isto explica porque durante as Inquisições e através da História, os judeus desistiram da vida para não se converterem.
b - Um homem como deus?
Os cristãos acreditam que D'us veio à terra em forma humana, como disse Jesus: "Eu e o Pai somos um" (João 10:30).
Maimônides devota a maior parte do "Guia para os perplexos" a idéia fundamental que D'us é incorpóreo, significando que Ele não assume forma física. D'us é eterno, acima do tempo. É infinito, além do espaço. Não pode nascer, e não pode morrer. Dizer que D'us assume forma humana torna D'us pequeno, diminuindo tanto Sua Unidade como Sua Divindade. Como diz a Torá: "D'us não é um mortal" (Bamidbar 23:19).
O Judaísmo diz que Messias nascerá de pais humanos, com atributos físicos normais, como qualquer outra pessoa. Não será um semi-deus, e não possuirá qualidades sobrenaturais. De fato, em cada geração vive um indivíduo com a capacidade de tornar-se o Messias. (veja Maimônides - Leis dos Reis 11:3).
c - Um intermediário para a oração?
É uma idéia básica na crença cristã que a prece deve ser dirigida através de um intermediário - i.e., confessando-se os pecados a um padre. O próprio Jesus é um intermediário, pois disse: "Nenhum homem chega ao Pai a não ser através de mim."
No Judaísmo, a prece é assunto totalmente particular, entre cada pessoa e D'us. A Tanach diz: "D'us está perto de todos que clamam por Ele" (Tehilim 145:18). Além disso, os Dez Mandamentos declaram: "Não terá outros deuses DIANTE DE MIM," significando que é proibido colocar um mediador entre D'us e o homem. (veja Leis da Idolatria cap. 1).
d - Envolvimento no mundo físico
O Cristianismo freqüentemente trata o mundo físico como um mal a ser evitado. Maria, a mais sagrada mulher cristã, é retratada como uma virgem. Padres e freiras são celibatários. E os mosteiros estão em locais remotos e segregados.
Em contraste, o Judaísmo acredita que D'us criou o mundo físico não para nos frustrar, mas para nosso prazer. A espiritualidade judaica vem através do envolvimento no mundo físico de maneira tal que ascenda e eleve. O sexo no contexto apropriado é um dos atos mais sagrados que podemos realizar.
A Torá Oral diz que se uma pessoa tem a oportunidade de saborear uma nova fruta e recusa-se a fazê-lo, terá de prestar contas por isso no Mundo Vindouro. As escolas rabínicas ensinam como viver entre o alvoroço da atividade comercial. Os judeus não se afastam da vida, elevam-na.
3. JESUS NÃO PERSONIFICA AS QUALIFICAÇÕES PESSOAIS DO MESSIAS
a - Messias como profeta
Jesus não foi um profeta. A profecia apenas pode existir em Israel quando a terra for habitada por uma maioridade de judeus. Durante o tempo de Ezra (cerca de 300 AEC), a maioria dos judeus recusou-se a mudar da Babilônia para Israel, e assim a profecia terminou com a morte dos três últimos profetas - Chagai, Zecharyá e Malachi.
Jesus apareceu em cena aproximadamente 350 anos após a profecia ter terminado.
b - Descendente de David
O Messias deve ser descendente do Rei David pelo lado paterno (veja Bereshit 49:10 e Yeshayáhu 11:1). Segundo a reivindicação cristã que Jesus era filho de uma virgem, não tinha pai - e dessa maneira não poderia ter cumprido o requerimento messiânico de ser descendente do Rei David pelo lado paterno!
c - Observância da Torá
O Messias levará o povo judeu à completa observância da Torá. A Torá declara que todas as mitsvot permanecem para sempre, e quem quer que altere a Torá é imediatamente identificado como um falso profeta. (Devarim 13:1-4).
No decorrer de todo o Novo Testamento, Jesus contradiz a Torá e declara que seus mandamentos não se aplicam mais. (veja João 1:45 e 9:16, Atos 3:22 e 7:37).
4. VERSÍCULOS BÍBLICOS "REFERINDO-SE" A JESUS SÃO TRADUÇÕES INCORRETAS
Os versículos bíblicos apenas podem ser entendidos estudando-se o texto original em hebraico - que revela muitas discrepâncias na tradução cristã.
a - Nascimento virgem
A idéia cristã de um nascimento virgem é extraído de um versículo em Yeshayáhu descrevendo uma "alma" que dá à luz. A palavra "alma" sempre significou uma mulher jovem, mas os teólogos cristãos séculos mais tarde traduziram-na como "virgem". Isto relaciona o nascimento de Jesus com a idéia pagã do primeiro século, de mortais sendo impregnados por deuses.
b - Crucifixão
O versículo em Tehilim 22:17 afirma: "Como um leão, eles estão em minhas mãos e pés." A palavra hebraica ka'ari (como um leão) é gramaticalmente semelhante à palavra "ferir muito". Dessa maneira o Cristianismo lê o versículo como uma referência à crucifixão: "Eles furaram minhas mãos e pés."
c - Servo sofredor
Os cristãos afirmam que Yeshayáhu (Isaías) 53 refere-se a Jesus. Na verdade, Yeshayáhu 53 segue diretamente o tema do capítulo 52, descrevendo o exílio e a redenção do povo judeu. As profecias são escritas na forma singular porque os judeus (Israel) são considerados como sendo uma unidade. A Torá está repleta de exemplos de referências à nação judaica com um pronome singular.
Ironicamente, as profecias de perseguição de Yeshayáhu referem-se em parte ao século 11, quando os judeus foram torturados e mortos pelas Cruzadas, que agiram em nome de Jesus.
De onde provêm estas traduções erradas? S. Gregório, Bispo de Nanianzus no século IV, escreveu: "Um certo jargão é necessário para se impor ao povo. Quantos menos compreenderem, mais admirarão."
5. A CRENÇA JUDAICA É BASEADA NA REVELAÇÃO NACIONAL
Das 15.000 religiões na História Humana, apenas o Judaísmo baseia sua crença na revelação nacional - i.e., D'us falando a toda a nação. Se D'us está para iniciar uma religião, faz sentido que Ele falará a todos, não apenas a uma pessoa.
O Judaísmo,é a única entre todas as grandes religiões do mundo que não confia em "reivindicações de milagres" como base para estabelecer uma religião. De fato, a Torá afirma que D'us às vezes concede o poder de "milagres" a charlatães, para testar a lealdade judaica à Torá (Devarim 13:4).
Hacamâ Torá, cap. 8:
"Os Judeus não creram em Moshê (Moisés), nosso mestre, por causa dos milagres que realizou. Sempre que a crença de alguém baseia-se na contemplação de milagres, tem dúvidas remanescentes, porque é possível que os milagres tenham sido realizados através de mágica ou feitiçaria. Todos os milagres realizados por Moshê no deserto aconteceram porque eram necessários, e não como prova de sua profecia.
"Qual era então a base da crença judaica? A revelação no Monte Sinai, que vimos com nossos próprios olhos e ouvimos com nossos ouvidos, não dependendo do testemunho de outros... como está escrito: 'Face a face, D'us falou com vocês...' A Torá também declara: 'D'us não fez esta aliança com nossos pais, mas conosco - que hoje estamos todos aqui, vivos.' (Devarim 5:3)."
O Judaísmo não são os milagres. É o testemunho da experiência pessoal de todo homem, mulher e criança.
6. JUDEUS E GENTIOS
O Judaísmo não exige que todos se convertam à religião. A Torá de Moshê é uma verdade para toda a Humanidade, seja judia ou não. O Rei Salomão pediu a D'us para considerar as preces de não-judeus que vão ao Templo Sagrado (Reis I, 8:41-43). O profeta Yeshayáhu refere-se ao Templo Sagrado como uma "Casa para todas as nações." O serviço no Templo durante Sucot realizava 70 oferendas de touros, correspondendo às 70 nações do mundo. De fato, o Talmud diz que se os Romanos tivessem percebido quantos benefícios estavam conseguindo do Templo, jamais o teriam destruído.
Os judeus nunca buscaram ativamente converter as pessoas ao Judaísmo, porque a Torá prescreve um caminho correto para que os gentios o sigam, conhecido como "As Sete Leis de Nôach." Maimônides explica que qualquer ser humano que observe fielmente estas leis morais básicas recebe um lugar apropriado no céu.
7. TRAZENDO O MESSIAS
De fato, o mundo está desesperadamente necessitado da Redenção Messiânica. A guerra e a poluição ameaçam nosso planeta; o ego e a confusão estão erodindo a vida familiar; violências por todos os lados. Na mesma extensão em que estamos conscientes dos problemas da sociedade, é a extensão em que ansiamos pela Redenção. Como declara a Torá Oral, uma das primeiras perguntas que um judeu recebe no Dia do Julgamento é: "Você ansiou pela vinda do Messias?"
Como podemos apressar a vinda de Mashiach? A melhor maneira é amar generosamente toda a humanidade, cumprir as mitsvot da Torá (da melhor maneira que pudermos) e encorajar outros para que as cumpram também.
Conversão ao Judaísmo
1. PONDERAR SOBRE O JUDAÍSMO
O primeiro passo para um processo de conversão é quando a pessoa realmente considera a possibilidade de tornar-se judia. As razões pelas quais as pessoas chegam a essa idéia são diversas. Alguns estão em uma busca espiritual e conhecem o judaísmo por diversas fontes tais como leituras, palestras e cerimônias religiosas judaicas. Outros estão envolvidos em um relacionamento afetivo com um judeu (judia) e desejam manter a família unida sob a mesma religião. Qualquer que seja a motivação, a primeira coisa a fazer é conhecer o judaísmo mais de perto. Essa fase inicial pode incluir conversas sobre o tema com os amigos e a família, a aquisição de livros e vídeos sobre judaísmo, e a partir daí refletir cuidadosamente se a conversão é a escolha certa.
2. ENCONTRAR UM RABINO
Se a pessoa realmente deseja prosseguir nessa direção, o próximo passo é encontrar um rabino. Esta parte do processo pode ser difícil por inúmeras razões. Os rabinos, como quaisquer outros indivíduos, são diferentes entre si. Alguns dedicam mais tempo do que outros aos candidatos à conversão. Outros seguem a tradição de recusar o candidato por três vezes a fim de testar a sua sinceridade e determinação. Contudo, geralmente os rabinos são extremamente dedicados, inteligentes e com uma profunda sensibilidade religiosa e espiritual. Eles são os guias espirituais de suas comunidades e decidem, em última instância, quem está apto a integrar o Povo Judeu. Dada a importância central do rabino para um candidato potencial à conversão, o mais sensato é fazer contato com diversos rabinos e sinagogas em busca da combinação ideal.
Se você estiver procurando por um rabino, procure antes aconselhar-se com seus amigos, com seu (sua) parceiro(a) e com a família dele(a). Nos EUA você pode contatar uma central local de rabinos ou alguma outra entidade judaica. No Brasil o contato pode ser feito com a Federação Israelita do seu Estado para saber se há sinagogas ou comunidades judaicas na sua cidade; outra possibilidade é entrar em contato direto com as sinagogas ou com associações, congregações e comunidades judaicas. Por precaução, confira com a Federação Israelita do seu Estado se os rabinos e instituições contatados são conhecidos (e reconhecidos) pela comunidade judaica, para evitar orientação inadequada e dissabores no futuro. Para mais informações veja a seção "Mais Informações Sobre Conversão ao Judaísmo."
Deve-se levar também em conta que há rabinos pertencentes a diferentes movimentos. Os três principais movimentos judaicos no Brasil são o Conservador, o Ortodoxo e o Reformista. É importante compreender as diferenças existentes entre eles para escolher com consciência com qual você mais se identifica. Não há um que seja melhor ou pior do que o outro: são formas diferentes dos judeus vivenciarem o judaísmo.
O rabino tem formação e autoridade para responder a todos os seus questionamentos a respeito da conversão. Por sua vez, ele também lhe fará uma série de perguntas. Abaixo citamos algumas perguntas que provavelmente serão feitas:
Por que você quer se converter?
Qual é a sua formação religiosa?
O que você sabe sobre judaísmo?
Você conhece as diferenças entre o judaísmo e sua religião original?
Você está sendo pressionado(a) a se converter?
Você deseja e se compromete a dedicar o tempo que for necessário para estudar e tornar-se judeu (judia)?
Você deseja e se compromete a criar seus filhos como judeus?
Você já discutiu essa decisão com a sua família?
Você tem outras dúvidas sobre judaísmo ou conversão?
3. ESTUDAR JUDAÍSMO
Suponhamos que você decidiu iniciar o seu processo de conversão ao judaísmo e um rabino concordou em supervisionar os seus estudos. Ainda que você não esteja completamente seguro(a) se irá se converter ou não, as etapas iniciais de aprendizagem irão acontecer. Mesmo aqueles que, em algum momento, optam por não se converter, descobrem que aprender mais sobre judaísmo é ao mesmo tempo interessante e útil para compreender melhor os judeus e contribuir para a diminuição do anti-semitismo (ódio aos judeus).
Os candidatos à conversão estudam judaísmo de diversas maneiras. Alguns o fazem individualmente com um rabino ou com um professor supervisionado por um rabino através de encontros regulares (a freqüência varia, dependendo da orientação do rabino). Outros freqüentam classes formais de conversão ou de Introdução ao Judaísmo, muitas vezes acompanhados do seu parceiro judeu.
Um curso típico inclui: crenças e práticas religiosas básicas, tais como as orações proferidas nos serviços religiosos e as orações individuais; cashrut (as leis alimentares judaicas); a história do Povo Judeu e de Israel; o lar judaico; os feriados judaicos; os marcos judaicos durante a vida (nascimento, bar/bat mitzvá, casamento, morte e luto); o Holocausto (Shoá), entre outros. O estudo do hebraico também está incluído.
O período de estudo varia bastante: pode durar seis meses, um ano, dois anos, e até mais, dependendo de diversas condições, como a regras da congregação à qual pertence o rabino, a linha de estudos, a determinação pessoal do candidato, o programa de estudos a ser cumprido, etc.
Um casamento entre uma pessoa nascida judia e outra que se converte ao judaísmo é um casamento judaico, não um casamento inter-religioso ou misto. No caso de se planejar um casamento, é fundamental que o candidato comece a estudar bem antes, pois só após se converter é que a união poderá ser realizada conforme o ritual judaico. Não se deve condicionar o tempo do processo de conversão a uma data já predeterminada para o casamento.
O período de estudos deve ser acompanhado pela prática, como criar uma atmosfera judaica no lar, aplicar as leis de cashrut e participar dos serviços religiosos da sua comunidade. A vivência judaica deverá ser estimulada e acompanhada de perto pelo rabino, conforme o entendimento do seu movimento. O estudo aliado à prática é de grande valia para que o candidato possa avaliar melhor se é isso mesmo o que ele quer para a sua vida.
4. O BET DIN (A CORTE RELIGIOSA)
O Bet Din em geral constitui-se de três pessoas (na ortodoxia, três homens), entre elas pelo menos um rabino (é comum constituir-se de três rabinos). Após todo o período de estudos, o Bet Din avalia formalmente a conversão formal. Antes do candidato se submeter a essa avaliação, o seu rabino deve informá-lo a respeito de como o Bet Din procede. Uma parte da avaliação será voltada a determinar o grau de conhecimento do candidato a respeito do judaísmo. Pode-se, por exemplo, perguntar sobre o significado do Shabat ou da crença judaica em um D'us Único. Estas questões não visam "derrubar" os candidatos. Obviamente, estes podem ficar tensos durante essa avaliação, mas em quase todos os casos a intenção é verificar a sinceridade do candidato e certificar-se de que uma decisão assim tão importante foi tomada por livre iniciativa. No caso de uma avaliação positiva, ao final o candidato deve assumir publicamente, perante o Bet Din, o seu compromisso em fazer parte do Povo Judeu.
5. BRIT MILÁ (Circuncisão ritual)
As exigências específicas para a conversão e a ordem em que devem ser cumpridas devem ser discutidas com o seu rabino. Uma das exigências para os homens é o brit milá, o milenar ritual de circuncisão que marca a entrada no Pacto entre D'us e o Povo Judeu. Se o candidato já é circuncidado, realiza-se uma cerimônia de hatafát dam brit: retira-se uma gota de sangue do pênis e "completa-se", por assim dizer, o brit milá. No Brasil todos os movimentos judaicos consideram o brit milá obrigatório. Nos EUA, embora a orientação do movimento reformista seja realizá-lo e a maioria dos rabinos exija isso, alguns poucos deixam esta obrigação de lado. Entre ortodoxos e conservadores o brit milá é absolutamente obrigatório.
6. TEVILÁ (Banho ritual)
Todos os convertidos (homens e mulheres) devem obrigatoriamente realizar a tevilá, um banho ritual pela imersão em uma micvá (veja abaixo). No Brasil a tevilá é considerada obrigatória por todos os movimentos religiosos. Nos EUA os ortodoxos e conservadores a consideram obrigatória; o mesmo vale para a maioria dos rabinos reformistas, com algumas exceções. A micvá pode ser qualquer fonte de águas naturais correntes, mas o termo em geral se aplica a uma espécie de piscina com um sistema próprio para acumular água das chuvas, com finalidade de purificação ritual. Antes da imersão o candidato deve se lavar minunciosamente em um banho de chuveiro. Em seguida deve se despir completamente para entrar na micvá (isto inclui a remoção de brincos, pulseiras, anéis, maquiagem, esmalte das unhas, etc.). Quando a cerimônia é realizada em local público (um lago, praia ou nascente de rio) alguns rabinos costumam permitir que se use uma vestimenta folgada. Bênçãos são recitadas e a pessoa submerge na água de forma a cobrir todo o corpo, a cabeça e com os olhos abertos. Costuma-se repetir o procedimento por três vezes para assegurar que todas as partes do corpo foram tocadas pelas águas. De acordo com a lei judaica tradicional, a imersão deve ser testemunhada por três homens. No caso de uma mulher realizar a imersão, os homens se retiram do recinto e são informados por uma auxiliar mulher que a imersão foi completa e as bênçãos foram recitadas. Nos movimentos conservador e reformista a imersão pode ser testemunhada por uma rabina e outras duas mulheres, ou por três mulheres já que não há rabinas ortodoxas.
7. TSEDACÁ
Antigamente os convertidos em Israel levavam sacrifícios ou oferendas ao Bet Hamicdásh, o Templo Sagrado em Jerusalém. Depois que o Templo foi destruído isto deixou de ser feito. Desde então a Lei Judaica não exige mais sacrifícios de animais ou oferendas. Contudo, alguns rabinos mencionam este momento como uma oportunidade para se fazer tsedacá, literalmente "justiça social". Pode ser uma doação em dinheiro ou alguma outra ação de caridade para os mais necessitados. Esse ato deve ser voluntário.
8. UM NOME EM HEBRAICO
Também neste caso há diversos procedimentos diferentes, dependendo do movimento, da congregação e do rabino. Em geral, após a avaliação pelo Bet Din, o brit milá (no caso dos homens) e a tevilá na micvá, o candidato à conversão assina um documento que formaliza o seu ingresso no Povo Judeu (em algumas comunidades a tevilá é feita após a assinatura deste documento). Esse documento também é assinado pelo rabino e pelas testemunhas. Nesse momento a pessoa convertida escolhe para si um nome em hebraico. As opções mais comuns costumam ser os nomes dos Patriarcas ou Matriarcas do Povo Judeu; a adoção do nome "Ruth", que aceitou a fé judaica e é a bisavó do Rei David também é muito comum, mas pode-se escolher qualquer nome em hebraico. Cabe ressaltar que o nome civil é preservado.
Tradicionalmente o nome hebraico de um indivíduo é acompanhado do nome hebraico de seu pai. Uma vez que o convertido não tem pais judeus (ou sua mãe não é judia), adiciona-se "ben/bat Avraham Avinu" que significa "filho/filha do nosso Patriarca Abrahão". Por exemplo, se um homem escolhe se chamar Yaacov, seu nome em hebraico será Yaakov ben Avraham Avinu. Em algumas comunidades as mulheres adicionam "bat Sara Imenu", que significa "filha da nossa Matriarca Sara". Há comunidades ainda em que se adicionam os nomes de Avraham e Sara. Por exemplo, se uma mulher escolhe se chamar "Ruth", seu nome em hebraico será Ruth bat Avraham veSara Horênu, que significa "filha dos nossos Pais Abrahão e Sara". A cerimônia de nomeação inclui a recitação de uma benção.
9. A CERIMÔNIA PÚBLICA
Uma cerimônia pública anunciando a conversão, embora não obrigatória, vem se tornando cada vez mais popular, especialmente entre os judeus reformistas. Nesta cerimônia o convertido é chamado perante a comunidade e faz um pequeno discurso, em geral sobre as razões da sua conversão ou sobre o que aprendeu com a sua experiência. É comum também o rabino falar algumas palavras e desejar ao convertido uma vida judaica plena de estudo da Torá, cumprimento de mitsvot (preceitos judaicos) e de tsedacá. É mais uma maneira da comunidade conhecer seu novo membro, dar-lhe as boas-vindas e integrá-lo.
10. UM CASO ESPECIAL: A CONVERSÃO DE MENORES DE IDADE
Nas famílias cujo pai é judeu e a mãe é não-judia, os ortodoxos e conservadores não consideram o filho como judeu. Já os reformistas entendem que no caso desse filho ser criado dentro do judaísmo e participar em cerimônias públicas e formais de identificação com o Povo Judeu, será considerado judeu.
Muitos rabinos ortodoxos se recusam a converter um menor de idade; outros rabinos, em geral conservadores ou reformistas, aconselham que o(a) jovem seja criado dentro do judaísmo e aguarde a época do seu bar/bat mitsvá para realizar a conversão, quando se imagina que já estará mais consciente desta decisão. Outros ainda entendem que se for da vontade dos pais, a conversão poderá ser feita ainda antes disso, partindo do princípio de que esta é uma forma de obter o reconhecimento da identidade judaica da criança e evitar possíveis constrangimentos no futuro. Nesses casos todos os movimentos exigem a circuncisão para os meninos que pode ser feita como manda a tradição, aos 8 dias de vida, seguida da Hatafát Dam Brit à época da conversão. Para alguns rabinos reformistas, basta uma cerimônia para se dar um nome hebraico na oportunidade da conversão. Rabinos ortodoxos e conservadores também exigem a imersão na micvá.
Fonte: http://groups.google.com.br/group/judeu/web/conversao-ao-judaismo?hl=pt-BR
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Tudo sobre o Messias
Tudo sobre o Messias
Rabino Aryeh Kaplan
Descendente do Rei David, ele profetizará uma era de paz mundial.
O Messias será um ser humano normal, nascido de pais humanos. Conseqüentemente, é possível que até já tenha nascido.
Semelhantemente, o Messias será mortal. Finalmente, morrerá e deixará seu reino como herança para seu filho ou sucessor.
A tradição menciona que este será um descendente direto do Rei David, filho de Jesse, como está escrito, "Do tronco de Jessé sairá um rebento, e das suas raízes um renovo." (Isaías 11:1). Da mesma forma, em nossas orações, pedimos, "que o filho de David floresça," e "que a memória de Mashiach Ben David surja... perante você." Existem inúmeras famílias judias hoje que podem traçar sua descendência diretamente ao Rei David.
O Messias será o maior líder e gênio político que o mundo já viu. E, igualmente será o homem mais sábio que já existiu. Usará seus talentos extraordinários para precipitar uma revolução mundial que trará a justiça social perfeita para a humanidade, e influenciará todas as pessoas a servirem a D'us com coração puro.
O Messias também alcançara a profecia e se tornará o maior profeta da história, segundo somente para Moisés.
Qualidades especiais
O profeta Isaías descreveu seis qualidades com as quais o Messias será santificado: "o espírito do D'us descansará nele, (1) o espírito de sabedoria e (2) compreensão, (3) o espírito do aconselhamento e (4) grandeza, (5) o espírito do conhecimento e (6) o temor a D'us" (Isaías 11:2). Em todas estas qualidades, o Messias superará qualquer outro ser humano.
O Messias não se deixará iludir pela falsidade e hipocrisia deste mundo. Terá o poder para entender o espírito da pessoa, conhecendo assim, seu registro espiritual completo podendo então julgar se é culpado ou não. Com relação a este poder, está escrito, "Deleitará-se pelo temor a D'us; não julgará pelo que seus olhos vêem, ou repreenderá pelo que seus ouvidos ouvem" (Isaías 11:3). Este é um sinal pelo qual o Messias será reconhecido. Porém, similarmente como o presente da profecia, este poder se desenvolverá gradualmente.
O Messias usará este poder para determinar em qual tribo cada judeu pertence. Então, dividirá a Terra de Israel em heranças terrestres onde cada tribo receberá sua parte. Começará com a tribo de Levi, determinando a legitimidade de cada Cohen e Levi. Com relação a isso o profeta escreve, "Ele purificará as crianças de Levi, e refinará-las como ouro e prata, para se tornarem portadoras de uma oferenda para D'us com honradez" (Malachi 3:3).
Metas e Missão
A missão do Messias tem seis partes. Sua tarefa principal é fazer com que todo o mundo retorne para D'us e Seus ensinamentos.
Ele também restabelecerá a dinastia real para os descendentes de David.
Ele supervisionará a reconstrução de Jerusalém, inclusive o Terceiro Templo.
Ele juntará o povo judeu na Terra de Israel.
Ele restabelecerá o Sanhedrin, o supremo tribunal religioso e as leis do povo judeu. Esta é uma condição necessária para a reconstrução do Terceiro Templo, como está escrito, "restituirei os teus juízes, como eram antigamente, os teus conselheiros, como no princípio; depois te chamarão cidade de justiça, cidade fiel. Sião será redimida pelo direito, e os que se arrependem, pela justiça "(Isaías 1:26-27). Este Sanhedrin também poderá reconhecer formalmente o Messias como rei de Israel.
Ele restabelecerá o sistema sacrifícios, como também as práticas do Ano Sabático (Shmitá) e o Ano Jubileu (Iovel).
Portanto, como Maimonides declara, "Se surgir um governador da família de David, submerso em Torá e em seus Mandamentos como David e seu antepassado, que siga tanto a Torá Escrita como a Oral, que conduza Israel de volta a Torá, fortalecendo a observância de suas leis e lutando em batalhas por D'us, então podemos assumir que ele é o Messias. E se for bem sucedido na reconstrução do Templo em seu local original e juntar o povo dispersado de Israel, sua identidade como Messias passa a ser uma certeza."
Influência mundial
Assim como os poderes do Messias se desenvolverão, sua fama também o fará. O mundo começará a reconhecer sua profunda sabedoria e virá buscar seu conselho. Portanto, ensinará toda a humanidade a viver em paz e seguir os ensinamentos de D'us. Os profetas, deste modo, prenunciam, "Nos últimos dias acontecerá que o monte da casa do Eterno será estabelecido no cume dos montes, e se elevará sobre os outeiros, e para ele afluirão todos os povos. Irão muitas nações, e dirão: Vinde e subamos ao monte do Eterno, e à casa de D'us de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos e andemos pelas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e as palavras do Eterno de Jerusalém. Ele (o Messias) julgará entre os povos e corrigirá muitas nações; estes converterão as suas espadas em relhas de arados, e suas lanças em podadeiras: uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra." (Isaías 2:2-4, Miquéias 4:1-3)
Na Era Messiânica muitas pessoas não-judias se sentirão compelidas a se converter ao Judaísmo como o profeta prenuncia, "Darei a todas as pessoas uma língua pura, para que possam chamar o nome de D'us, e todos possam servi-Lo de uma só forma" (Zacarias 3:9). Uma vez que o Messias se revele, todavia, convertidos não serão aceitos.
Ainda, Jerusalém se tornará o centro de adoração e instrução para toda humanidade. Deste modo D'us disse a Seu profeta, "Voltarei para Sião, e habitarei no meio de Jerusalém; Jerusalém se chamará cidade fiel; e o monte do Eterno, monte santo " (Zacarias 8:3).
Então começará o período em que os ensinamentos de D'us serão supremos sobre toda humanidade, como está escrito, "O Eterno reinará no monte Sião e em Jerusalém; perante os seus anciãos (ele revelará sua) glória " (Isaías 24:23). Todas as pessoas virão para Jerusalém buscando D'us. O profeta Zacarias descreve este fato graficamente quando diz, "Virão muitos povos, e poderosas nações buscar em Jerusalém o Eterno e suplicar a Seu favor...naquele dia sucederá que pegarão dez homens, de todas as línguas das nações, pegarão, sim, na orla da veste de um judeu, e lhe dirão: Iremos convosco, porque temos ouvido que D'us está convosco." (Zacarias 8:22-23).
Em Jerusalém, o povo judeu será estabelecido como professores espirituais e morais de toda humanidade. Naquele tempo, Jerusalém se tornará a capital espiritual do mundo.
Na Era Messiânica, todas as pessoas acreditarão em D'us e proclamarão Sua Unidade. Desta forma, diz o profeta, "O Eterno será rei sobre toda terra; naquele dia um só será o Eterno, e um só será seu nome."(Zacarias 14:9).
Paz e Harmonia
Na Era Messiânica, inveja e competições pararão de existir, e no lugar delas haverá abundância de coisas boas e todos os tipos de gentilezas serão tão normais quanto a poeira. Os homens não travarão ou se prepararão para guerra, como o profeta prenuncia, ". Uma Nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra." (Isaías 2:4).
Na Era Messiânica, todas as nações viverão pacificamente juntas. Semelhantemente, pessoas de todas os níveis viverão juntas em harmonia. O profeta comenta este fato alegoricamente quando diz, "O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará. A vaca e a ursa pastarão juntas, e as suas crias juntas se deitarão; o leão comerá palha como o boi." (Isaías 11:6-7).
Embora o Messias influencie e ensine toda humanidade, sua missão principal será trazer o povo judeu a D'us. Deste modo, o profeta diz, "Porque os filhos de Israel ficarão por muitos dias sem rei, sem príncipe, sem sacrifício, sem coluna, sem estola sacerdotal ou ídolos do lar. Depois tornarão os filhos de Israel e buscarão ao Eterno seu D'us, e a Davi, seu rei; e nos últimos dias, tremendo se aproximarão do Eterno e de sua bondade" (Oséias 3:4-5). Igualmente lemos, "O meu servo Davi reinará sobre eles; todos eles terão um só pastor, andarão nos meus juízos, guardarão os meus estatutos e os observarão." (Ezequiel 37:24).
Ao passo que a sociedade avança em direção a perfeição e o mundo se torna cada vez mais religioso, a principal ocupação da humanidade será conhecer a D'us. A verdade será revelada e o mundo inteiro reconhecerá que a Torá é o verdadeiro ensinamento de D'us. É o que o profeta quer dizer quando escreve, "...a terra se encherá de conhecimento do Eterno, como as águas cobrem o mar" (Isaías 11:9). Da mesma forma, toda a humanidade atingirá os níveis mais altos de Inspiração Divina sem qualquer dificuldade.
Embora o homem ainda tenha o livre arbítrio na Idade Messiânica, ele terá todo o incentivo para fazer o bem e seguir os ensinamentos de D'us. Será como se o poder do mal estivesse totalmente aniquilado. É o que o profeta prenuncia, "porque está é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Eterno. Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei. ..não ensinará jamais cada um ao seu irmão dizendo: conheça D'us, porque todos Me conhecerão, desde o menor até o maior deles" (Jeremias 31:33-34).
O profeta também diz em nome de D'us, "Darei vos um coração novo, e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne" (Ezequiel 36:26), ou seja, a inclinação em direção ao bem estará tão fortalecida no homem que este não seguirá suas tentações físicas. Pelo contrário, irá constantemente se fortalecer espiritualmente e andará em direção a servir a D'us e seguir Sua Torá. Este é o significado da promessa da Torá: "E abrirá o Eterno, teu D'us, teu coração e o coração de tua descendência, para amares ao Eterno, teu D'us, com todo o coração e com toda tua alma, para que vivas" (Deuteronômio. 30:6).
Prática religiosa
O Messias não mudará nossa religião de forma alguma. Todos os mandamentos vão estar ligados à Era Messiânica. Nada será adicionado ou extraído da Torá.
Há uma opinião que diz que os únicos livros da Bíblia que serão regularmente estudados na Era Messiânica são os Cinco Livros de Moisés (o Pentateuco) e o Livro de Ester (Meguilat Ester). A razão para isto é que todos os outros ensinamentos dos profetas são derivados da Torá, e já que o Messias revelará todos os significados da Torá à perfeição, a escrita profética não será mais necessária.
O sistema de sacrifícios será restabelecido na Era Messiânica. Porém, só será aceito o sacrifício de ação de graças, pois já que o coração do homem será circuncidado o desejo de pecar não mais existirá e os sacrifícios que serviam para se reconciliar e reparar o erro não serão necessários. Conseqüentemente as únicas rezas que existirão serão as de ação de graças.
Nossos profetas e sábios não anseiam pela Era Messiânica para que possam mandar no mundo e dominar a humanidade. Também não desejam que as nações os honre, ou que possam ser capazes de comer, beber e serem felizes. Só desejam uma coisa: estarem livres para poderem se envolver com a Torá e sua sabedoria. Não querem que nada os atrapalhe ou distraia, pois, desta forma podem se empenhar para serem merecedores da vida no Mundo Vindouro.
Do livro: "The Handbook of Jewish Thought" (Vol. 2). Publicado pela Maznaim. Reimpresso com permissão.
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Uma Letra da Torá
Eu me pergunto se algum povo jamais amou um livro tanto quanto nós amamos a Torá. Nos levantamos quando ela passa, como se fosse uma rainha. Dançamos com ela como se dança com uma noiva. Se danificada ou destruída, nós a sepultamos, da mesma forma que sepultamos um amigo ou parente. Nós a estudamos ininterruptamente, como se ela encerrasse todos os segredos da nossa existência. Heinrich Heine certa vez chamou a Torá de “a terra ancestral portátil”, querendo dizer que quando não tínhamos nossa terra, encontramos um lar nas palavras da Torá. Ainda mais eloqüente, o Baal Shem Tov, fundador do Chassidismo no século XVIII, disse que o povo judeu é um Sefer Torá vivo, e que cada judeu é uma de suas letras. Esta imagem me emociona, e me leva a uma pergunta – a pergunta: Será que nós também somos letras no pergaminho sagrado do nosso povo?
Em alguma etapa da vida, precisamos decidir como vamos viver. Temos muitas opções, e geração alguma conheceu tantas delas. Podemos viver para o trabalho, para o sucesso, a riqueza, a fama ou o poder. À nossa escolha, está toda uma série de estilos de vida e tipos de relacionamentos.
Podemos explorar um imenso número de crenças, vertentes místicas e terapias. Há uma única limitação: Nós temos apenas uma vida, e ele é curta. Como vivemos e em nome do quê vivemos são as decisões mais determinantes que temos a tomar. Podemos ver a vida como uma sucessão de momentos que gastamos, como moedas, em troca de uma infinidade de prazeres. Ou, então, podemos vê-la como a uma letra do alfabeto. Sozinha, uma letra não tem significado. Mas, combinada a outras letras, forma uma palavra que, ao lado de outras, forma uma sentença. Unidas, as sentenças se tornam parágrafos, e parágrafos em seqüência contam uma história. Assim o Baal Shem Tov entendeu a vida. Cada judeu é uma letra. Cada família é uma palavra; cada comunidade, uma sentença, e o povo judeu é um parágrafo. Sua saga através dos séculos constitui uma história, a mais estranha e comovente entre todas as que compõem a grande História da humanidade.
A metáfora do Baal Shem Tov é, para mim, a chave que permite compreendermos por que nossos ancestrais decidiram continuar como judeus, mesmo nas épocas mais terríveis. Suspeito que eles soubessem ser, cada um, uma letra desta história de perigo e coragem. Seus próprios ancestrais arriscaram-se a selar um pacto com D-us, o que lhes conferiu um papel muito especial na história. Eles partiram para uma jornada que começou no passado distante e prossegue nos passos de cada nova geração. No coração do pacto vive o conceito de Emuná, a fé que se traduz em fidelidade e lealdade. Ao dar continuidade à sua história, os judeus provam ser tão leias às gerações passadas quanto àquelas que ainda não nasceram. Um Sefer Torá ao qual falta uma letra é declarado inválido, defeituoso. Acredito que a maioria dos judeus nunca tenha desejado ser esta letra ausente. O que mudou, então? Por que a voz da lealdade ao passado e ao futuro não é mais ouvida entre um número tão grande de jovens judeus? Penso que a resposta esteja em um dos grandes confrontos entre o judaísmo e o pensamento moderno.
O judaísmo é uma religião iconoclasta que muitas vezes desafiou as certezas de uma era, e é difícil recapturar o caráter dramático destes episódios depois de tantos séculos. Para nós, são mais do que evidentes as razões que levaram Abrahão a acreditar em um D-us único, que fizeram Moisés lutar contra a escravidão do seu povo, que motivaram os profetas a denunciar a corrupção na vida pública. Seus feitos são nossa herança. Vemos o mundo através de seus olhos, e é difícil entendermos como as pessoas puderam pensar de outra forma. A história é o passado relatado pelos vitoriosos, e os judeus conheceram muitas vitórias morais. Como Thomas Cahil aponta em seu livro "A Dádiva dos Judeus”, a civilização ocidental é em grande parte moldada por conceitos que foram articulados pela primeira vez por judeus.
Nossas vitórias, no entanto, nunca foram fáceis de alcançar. Ao contrário: sempre que ocorreram, implicaram o questionamento de verdades tidas como primárias em suas épocas. A visão espiritual dos heróis e heroínas da vida judaica foi, quando formulada pela primeira vez, uma concepção severa, estranha, contrária à própria intuição humana. Não por acaso, Moisés, Isaías e Jeremias reclamam da dificuldade que tiveram para transmitir ao povo a palavra de D-us. Querem dizer com isto que não lhes foi fácil encontrar os termos que puderam ser compreendidos por seus contemporâneos. E eles não foram os últimos a se queixar. O judaísmo é o eterno ponto de interrogação Divino face à sabedoria convencional da humanidade, e este tem sido o perfil da identidade judaica nos tempos modernos. Trata-se de uma identidade que se expressa através de uma certa linguagem, de uma determinada maneira de pensar e de ver o mundo que dificilmente encontra tradução fiel no universo dos conceitos hoje utilizados.
Desde o Renascimento, séculos de pensamento ocidental acabaram por nos fazer acreditar que, a partir do momento em que escolhemos como viver, estamos livres de vínculos. Nada nos prende ao passado. Somos quem e o quê decidimos ser. É uma ótica tão axiomática que não nos deixa enxergar a história intelectual que tem por trás de si. Identificamos, porém, alguns momentos chave desta história: quando David Hume, no século 18, afirmou que “ser” não poderia, em instância alguma, implicar “dever”, ou quando Kant colocou o conceito de autonomia no centro da vida moral, ou ainda quanto Jean-Paul Sartre, o existencialista do século 20, argumentou que, em cada um de nós, a “existência precede a essência”. Esta longa e cumulativa linha de pensamento nos levou a acreditar que identidade é algo que escolhemos, livres de qualquer vínculo com o passado. Fato algum define nossas obrigações, e a história não determina nosso papel. Chegamos ao mundo com uma tela em branco nas mãos, e sobre ela podemos traçar o auto-retrato que quisermos.
Frente a tal complexo de idéias, a vida judaica é uma perene voz dissonante. Ser judeu é saber que esta não pode ser toda a minha história. Uma melodia é mais do que uma simples reunião de notas musicais. Uma pintura não é um conjunto de pinceladas feitas ao acaso. A seqüência das partes que compõem um todo tem um porquê, e a história só faz sentido quando as vidas daqueles que a escrevem são ligadas umas às outras, como as dos personagens de uma narrativa, como as das figuras de um drama em andamento. De outra forma, seria impossível falar sobre significado – e o judaísmo é a insistência de que a história tem um significado. Daí, inferimos que cada um de nós tem um significado preciso dentro da história judaica, a extraordinária história de um povo devotado a certas idéias. Nós não somos átomos flutuando livremente no espaço. Nós somos letras da Torá.
Uma forma de tornar nítido o contraste é imaginar uma visita a uma enorme biblioteca. As estantes repletas vão do piso ao teto, de parede a parede. Estamos cercados por livros que expõem o pensamento de um grande número de pessoas (algumas delas ilustres; outras, nem tanto) e basta estendermos o braço para apanhar qualquer um deles. Tudo o que temos a fazer é escolher. Começamos a ler e, por um período, mergulhamos no mundo real ou fictício do autor. Se nos agradar o bastante, podemos procurar mais volumes escritos pela mesma pessoa, ou outras obras sobre o mesmo assunto. E nada nos impede de interromper a leitura e buscar novos títulos que chamem nossa atenção. Não existem limites. Quando perdemos o interesse, simplesmente colocamos o livro de volta na estante, onde ficará até atrair outro leitor. Não há compromisso. É apenas um livro.
Assim é a identidade para a cultura secular contemporânea do ocidente. Escolhemos este ou aquele livro por mera curiosidade momentânea. Há muitas maneiras de viver e nenhuma delas pede coisa alguma em troca, ou define quem somos com mais acuidade do que outra. Podemos experimentar qualquer uma pelo tempo que quisermos. Como leitores casuais, permanecemos intactos, intocados. Os vários estilos de vida que adotamos são como os livros que escolhemos aleatoriamente na grande biblioteca. Sempre podemos substituí-los, devolvê-los aos seus respectivos nichos. Eles são o que lemos, e não o que somos.
O judaísmo nos pede para considerar uma possibilidade totalmente diferente. Imagine que, ao perambular entre as estantes da biblioteca, você veja um livro que em nada se parece com os outros. Ele captura sua atenção porque o título é o nome de sua família. Intrigado, você passa a folheá-lo e nota, pelas distintas caligrafias, que as páginas foram escritas por várias pessoas em diversos idiomas. Então, começa a ler e, aos poucos, vai compreendendo o conteúdo. É a história de cada geração de seus ancestrais. Eles tiveram o cuidado de registrá-la para que a geração seguinte pudesse conhecê-la. Assim, todos aqueles nascidos no seio desta família podem saber de onde vieram seus antepassados, o que aconteceu com eles ao longo do tempo, em nome do quê viveram e porquê. Você continua a virar as páginas e vê que a última está em branco, com exceção do cabeçalho, Ele traz o seu nome.
De acordo com as convenções intelectuais da modernidade, o fato não deveria fazer diferença. Não há nada no passado que possa influenciar seu presente; não há história que possa determinar quem você é e tem a liberdade de ser. Mas esta não pode ser toda a verdade. Minha vida, por exemplo, mudaria por completo no instante em que eu o tivesse nas mãos. Meu nome, a vida dos meus ancestrais... Não, eu nunca poderia lê-lo como a outro livro qualquer, porque ele me levaria a descobrir quem sou. Tampouco poderia ignorá-lo, devolvê-lo à prateleira. Graças a ele, eu agora saberia ser parte de um antigo povo, um povo cuja jornada em direção a um certo destino ainda não terminou, e que cabe a mim levá-la adiante.
Este conhecimento impede que eu continue a encarar o mundo como uma biblioteca. É verdade, há uma série de outros livros à disposição, e alguns deles podem ser interessantes, inspiradores, envolventes. Mas este livro é diferente. Sua mera existência implica uma série de questões dirigidas exclusivamente a mim. Escreverei meu próprio capítulo? Ele será uma seqüência dos relatos daqueles que me antecederam? Será que, no momento propício, eu passarei o livro aos meus filhos? Ou terei me esquecido dele, ou então o doado para um museu como antigo objeto herdado?
Isto é mais do que um exercício de imaginação. O livro da nossa história existe, e cada judeu é uma vida – um capítulo – dele. É o livro onde está escrito quem sou eu, e talvez seja o que de mais valioso eu possa receber. Para sentir que fazemos parte de um todo, precisamos conhecer um pouco de nossa história pessoal. Precisamos saber quem nos concebeu, saber de onde vieram e qual é sua história. A necessidade torna-se mais aparente nos casos em que, por qualquer razão, a informação não se encontra disponível. Uma criança adotada quase sempre tem curiosidade a respeito de seus pais naturais, uma curiosidade que às vezes pode beirar a obsessão. O mesmo acontece com uma criança abandonada por um dos pais antes que tivessem a chance de estabelecer um relacionamento. Não saber quem sou pode me fragilizar e me fazer sentir menos do que inteiro. A questão da identidade é fundamental, e não pode ser respondida se eu não conhecer meu passado.
Nós somos, cada um de nós, muitas coisas – cidadãos de um país, habitantes de uma região, moradores de um bairro, integrantes de um grupo. Temos amizades, responsabilidades, paixões e preocupações que compõem nossa personalidade, mas não retratam o âmago de nossa identidade. Um exemplo: posso ser um advogado preocupado com o meio ambiente, um cidadão americano vivendo em Seattle que adora os filmes de Steven Spielberg e o humor de Woody Allen. Estes são fatos a meu respeito – o que faço, com o que me preocupo, onde moro, do que gosto. Eles não dizem quem sou eu. Podem mudar com o passar do tempo sem que eu deixe de existir. A resposta mais fundamental à pergunta que nunca muda, “Quem sou eu?”, envolve uma jornada que passa por meus pais, meus avós, e chega ao ponto mais distante possível na linha do tempo que abriga meus ancestrais. É minha também, a história dos que vieram antes de mim. Eu posso escolher não dar continuidade a ela, mas negá-la significa, de certa forma, viver uma mentira. Porque minha identidade começa com a história da minha família.
A questão moderna tem, quem diria, um eco bíblico. A primeira pergunta que Moisés fez a D-us foi “Mi anochi?” – “Quem sou eu?”. Humilde, ele deseja saber se tem mérito pessoal suficiente para levar os israelitas à liberdade. Mas ouve-se também o reverberar de uma crise de identidade, tão familiar nos dias de hoje quanto rara na época. Afinal, quem foi Moisés? Uma criança escondida em
uma cesta de junco, encontrada e adotada por uma princesa egípcia, que recebeu um nome egípcio e cresceu no palácio do faraó. Muitos anos depois, quando circunstâncias o obrigaram a sair do país e refugiar-se em Mídia, ele teve a oportunidade de salvar as filhas de Jetró, que disseram a seu pai: “Um egípcio nos trouxe até aqui”. Moisés tinha o aspecto, a linhagem e as vestimentas de um egípcio. Mas o texto nos conta que, quando homem feito, ele “foi aos seus irmãos e viu seu fardo”. De alguma maneira, sabia que os israelitas escravizados eram “seus irmãos”. Criado como um egípcio, Moisés era um judeu.
A mente dá voltas frente a uma escolha como a que lhe coube fazer. De um lado, estava a vida de regalias e poder como príncipe na corte do faraó; de outro, a perspectiva de anos de dificuldade e privação como membro de uma nação de escravos. Mas quando D-us lhe diz “Eu sou o D-us de teu pai, o D-us de Abrahão, o D-us de Isaac e o D-us de Jacob”, a crise de identidade de Moisés se resolve e nunca mais reaparece daquela forma. Agora, Moisés sabe que é parte de uma história que começou com os Patriarcas e continua através dele. Suas roupas e seu idioma podem ser de um egípcio, mas ele é um judeu porque judeus foram seus ancestrais, os que nele depositam suas esperanças. A questão hoje à nossa frente é pouco usual, mas não inédita: cada um de nós também tem que escolher, como Moisés. Fazemos parte do universo cultural característico das democracias liberais de nossos antepassados e do destino que une nossas vidas às deles. Há uma diferença entre onde estamos e o quê somos. O judaísmo não está errado ao vincular identidade e nascimento, ainda que esta ótica se oponha totalmente à essência da cultura pós-renascentista.
O fato de termos nascido judeus não é um fato qualquer. Ele só aconteceu porque mais de cem gerações de ancestrais decidiram ser e permanecer judeus, transmitindo esta identidade aos seus filhos, e escrevendo assim a mais notável história de continuidade de que se tem notícia. Nunca foi uma decisão tomada ao acaso. Ela tem suas raízes na convicção primeira dos nossos antepassados, a de que os judeus haviam firmado um pacto com D-us, um pacto que os levaria a uma jornada cujo destino se encontrava no futuro distante, mas que teria imensa importância para a humanidade. A jornada em si era o tema da próxima etapa da minha pesquisa, mas um fato ficou claro desde o princípio: ela não seria cumprida facilmente. Ao contrário de quase todas as outras visões da sociedade ideal, os judeus sabiam que a sua seria fruto do trabalho de muitas gerações. Por isto, tinham o dever de passar seus ideais às crianças – para que elas também pudessem tomar parte na jornada; ser letras da Torá. Ser um judeu, hoje como nos dias de Moisés, é ouvir o chamado daqueles que vieram antes de nós e saber que somos os guardiões de sua história.
Já no final da vida, o grande historiador não judeu A. L. Rowse publicou suas memórias e, em uma das últimas páginas do livro, escreveu um frase surpreendente: “Se há no mundo algum título que eu gostaria de ter, seria o de judeu honorário”. O sonho não realizado de Rowse é o direito inato dos judeus. Somos herdeiros do livro escrito por nossos ancestrais e uma das letras, apenas nós podemos escrever.
Eu sou judeu porque, conhecendo a história do meu povo, ouço seu chamado para escrever o próximo capítulo. Eu não vim do nada. Tenho um passado, e ele exerce sua autoridade sobre mim. Eu sou um judeu porque somente se eu permanecer judeu manterei viva a história de cem gerações. Sigo na jornada que iniciaram porque, tendo chegado tão longe, não permitirei que seja interrompida. Não serei eu a letra a faltar na Torá. Não posso oferecer uma resposta mais simples, e desconheço outra que seja mais poderosa.
(Resposta a pergunta "Por que ser Judeu?". Extraído do livro – Uma Letra da Torá da autoria do Rabino Jonathan Sacks Editora e Livraria Sefer Ltda – São Paulo - 2002.)
